Antonio Sousa-Uva
Em novembro, a Sociedade Portuguesa
de Medicina do Trabalho (SPMT) vai realizar o XVIII Fórum Nacional de Medicina
do Trabalho.
Foi como Vice-Presidente da SPMT que
tive o prazer de, com o Professor Mário Humberto de Faria então Presidente,
participar ativamente na criação destes Fora. Recordo com alegria as fogosas,
extensas e profusas discussões sobre a designação do Encontro e da sua
periodicidade.
Prevaleceu a periodicidade de
realização nos anos ímpares, após um esforço de convergência com idênticas
iniciativas das gentes do Norte que, nos anos pares, ficaram de realizar os
encontros da Póvoa do Varzim, infelizmente extintos. Recentemente, e pós pandemia, a periodicidade parece ter-se modificado e prevalecer
a sua realização anual.
Deve, todavia, dizer-se que, na sua
criação, o mesmo esforço foi feito com Coimbra que não manifestou
disponibilidade para organizar idêntica reunião científica no Centro o que
determinaria a sua realização a cada três anos. Tal não deu continuidade às
reuniões pioneiras de Medicina do Trabalho em Portugal, as Jornadas Médicas da
Figueira da Foz – Medicina do Trabalho em que participei ativamente, pela
última vez, um ano antes do 1º Fórum, nas XXIV Jornadas, em setembro de 1990.
Mais intensa foi, todavia, a
discussão em torno da designação da reunião científica já que o consenso foi
muito fácil na definição da população-alvo que, na esteira da conceptualização
das relações trabalho/saúde(doença) dos anos de 1980, foi muito abrangente e
destinada a todas as áreas científicas de alguma forma relacionadas com essas
interdependências e a todos os grupos profissionais interessados na prestação
de cuidados de saúde e segurança do trabalho.
A indecisão não se centrava tanto
na designação “Fórum”, mais expressivo do ecletismo pretendido, por oposição a
“Congresso” então mais em voga, mas essencialmente na designação de “Medicina
do Trabalho” ou de “Saúde Ocupacional”. Era então extremamente inovador
realizar uma reunião de médicos com uma “palete” tão vasta de técnicos e outros
profissionais como população-alvo e não apenas médicos, enfermeiros e outros
clínicos como atualmente alguns se referem à Saúde Ocupacional.
Veio a prevalecer “Medicina do Trabalho” e desde a sua primeira edição, em 1991, os fora têm-se realizado regularmente a cada dois anos, com excepção do período pandémico e o aparente propósito de passar para uma periocidade anual iniciado em 2023.
Para que não se esqueça o 1º Fórum
Nacional de Medicina do Trabalho (Presidente, Prof. Mário Faria) realizou-se em
Lisboa entre 23 e 26 de Outubro de 1991.
O Fórum teve sete sessões
plenárias, todas a cargo de preletores estrangeiros:
- Martin – “L’esprit des règlementations européennes dans le domaine de la santé au travail à l´horizon 1992”;
- Goelzer – “Introdução à tecnologia de controle em Saúde Ocupacional”;
- Lille – “Actualité du travail posté”;
- Anderson – “Promoting health at work: examples from E.C. countries”;
- Jeyaratnam – “Transfer of Hazardous Industries”;
- Zwingmann – “Segurança e Proteção da Saúde no trabalho na Europa: Direitos de participação e Desafios para os Sindicatos” e
- Monod – “L’Ergonomie à l’Hôpital”
Teve ainda inúmeras sessões simultâneas procurando, dessa forma, corresponder a uma “oferta” que respeitasse as diversificadas formações académicas e grupos profissionais dos participantes.
Julgo ter sido a reunião
técnico-científica mais importante na área da Saúde Ocupacional/Medicina do
Trabalho realizada em Lisboa após a realização do 10º Congresso Internacional
de Doenças Relacionadas com o Trabalho, designação do Congresso da
International Commission on Occupational Health – ICOH (então ICOM de Occupational
Medicine), que ainda se mantém com regularidade a cada três anos talvez com
o estatuto do mais importante fórum nessa área científica. Esse Congresso realizou-se,
como foi dito, em Lisboa no ano de 1951, e foi presidido por T. Stowell e
secretariado por L. Carozzi.
O 3º Fórum Nacional de Medicina do Trabalho, realizado em 1995, teria, no entanto, muito maior dimensão já que se realizou em simultâneo com o Congresso Ibero-Americano, com participação muito ampla de médicos do trabalho de cerca de uma dezena de países dessa área geográfica e um programa cultural fantástico, de que se destaca a Fotografia subordinada ao tema "O Homem e o Trabalho" e a Música, com inúmeras canções de trabalho que deram uma beleza especial aos períodos de início e de pausas das sessões científicas.
E para que não se esqueça, a Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho não teria tido meios de organizar o Fórum sem apoios, e o patrocínio decisivo foi da extinta Companhia de Seguros Bonança. Recordo, ainda com algum incómodo, no período de preparação, o périplo realizado por Laboratórios Farmacêuticos, na área de Queluz de Baixo, e a atribuição de patrocínios de mínguos três dígitos de euros a uma especialidade médica então pouco valorizada por essa actividade económica. Foram tempos bem difíceis que parece terem valido a pena.
Felizmente que agora os tempos são outros, mas poderiam, eventualmente, não ter sido sem o pioneirismo que agora se evoca. E, mais importante ainda, os médicos do trabalho que integram a SPMT continuam a dar-lhe uma grande importância, no contexto da divulgação científica na sua área de investigação e de estudo. Recorde-se, no entanto, que, numa actividade médica maioritariamente pulverizada por pequenas organizações, o convívio e a troca de experiência que proporciona não é de todo despiciendo.
Nota: Baseado num texto publicado em 2017 no portal Safemed, agora adaptado aos tempos actuais.

