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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Trabalho e Cancro: uma associação muito pouco valorizada

 


Antonio Sousa-Uva

A propósito do dia mundial do cancro que hoje, dia 4 de fevereiro, se celebra ...

Há umas décadas, no exercício da minha atividade como Médico do Trabalho numa grande empresa da Aviação Civil tive a incumbência de dar parecer ao Conselho de Administração em situações de pedidos de facilidade de passagens em trabalhadores portadores de doença em tratamento fora do território Nacional. Nessa atividade recusei a herança então existente de circunscrever esse parecer apenas à análise documental, optando também por uma consulta presencial. Essas muitas dezenas (ou mesmo algumas centenas ...) de consultas encerram histórias, a maior parte das vezes de grande complexidade, e em muitos casos de muita gravidade (e até dramatismo) em que as situações oncológicas eram prevalentes.

Recordo bem uma situação de um trabalhador com um ciclo de tratamentos prescrito numa Clínica conhecida nos EUA no Estado de Minnesota, um dos seus 50 Estados localizado a norte. Tratava-se de um cancro da bexiga, num trabalhador que nunca tinha sido fumador, que desempenhava a sua função como membro de uma equipa navegante de cabina em que uma exposição profissional que pudesse estar na sua origem, era inverosímil.

Talvez a minha especialização em Imunoalergologia me tenha habilitado a realizar histórias clínicas muito pormenorizadas e, igualmente, muito extensas numa tarefa "caça alergénio" e, consequentemente, pela grande probabilidade da etiologia da situação oncológica poder ser profissional fui muito insistente na busca de uma história pregressa com exposição a substâncias químicas que pudessem estar na origem daquele quadro nosológico. Em consequência dessa investigação obtive a informação que o trabalhador detinha, há alguns anos, uma Lavandaria e Tinturaria. Tal justificou a sugestão de comunicar esse facto ao Oncologista americano que o seguia, já que tive a informação que tal matéria nunca teria sequer sido aflorada nas situações clínicas até aí ocorridas.

Apesar de não saber do seu actual paradeiro, e de terapeuticamente ter pouca relevância, vim a receber, posteriormente, uma carta do seu Oncologista que me agradecia a lembrança e o meu interesse e "se desculpava" por considerar uma falha não ter dado qualquer atenção a potenciais exposições a substâncias químicas.

Há, de facto, localizações e tipos de cancro que têm uma importante frequência em determinados trabalhos, atividades ou exposições profissionais que tornam obrigatória a colheita de uma história profissional mais pormenorizada da que deve ser sempre realizada. As hipóteses diagnósticas de cancro da bexiga ou de cancro do pulmão são dois desses exemplos em que devemos sempre ter presente, em qualquer contexto clínico e não exclusivamente no exercício da Medicina do Trabalho, na exploração semiológica!

Nota: publicado anteriormente, em versão semelhante, na plataforma Heathnews.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

 


Antonio Sousa-Uva

Há muitos anos, no computador em que trabalhei e escrevi a minha tese de doutoramento, um 386, o screen saver que coloquei tinha o título de mais esta "migalha". De facto, na União Europeia existem cerca de 500 mortes diárias por doença "relacionada com o trabalho" e 10 por acidente de trabalho mortal (anualmente, 170.000 e 3.300 respetivamente). Claro que a União Europeia tem cerca de 450 milhões de habitantes, o que significa uma proporção relativamente baixa, mas, como dizia um meu anterior Professor e Chefe de Serviço, "... não te esqueças, que os que morrem, morrem 100% ...".


Como tenho vindo a escrever e a palestrar há umas dezenas de anos:


Porque será que nos tocam tanto as mortes causadas por acidentes de trabalho e tão pouco as causadas por "doenças relacionadas com o trabalho"? Será o dramatismo da ocorrência que determina tal diferença? ou, em alternativa, quem não sabe (ou não conhece) não é tocado?


Ainda, em alternativa, se nos tocam de igual modo, por que será que se investe alguma coisa (não posso dizer assim tão pouco) na prevenção dos acidentes de trabalho mortais e quase nada (não posso dizer absolutamente) na prevenção das "doenças relacionadas com o trabalho"?


Será o dramatismo das situações e o seu (relativamente) fácil reconhecimento que estão na base daquela desproporção que é ainda maior no número de ocorrências?


Não tenho respostas unívocas para estes e outros tipos de perguntas, mas o que estará, por certo, na sua origem será, eventualmente, o paradoxo dos responsáveis por essas matérias acharem que falarem nos assuntos é sinónimo de medidas concretas de prevenção? Ou, pior ainda, inscreverem a sua prevenção em programas plurianuais e acharem que isso previne a sua ocorrência? Claro que não é.


Talvez a forma mais expedita de ilustrar essa realidade seja evocar a exposição profissional ao amianto. Será, na atualidade, talvez o agente profissional mais falado em matéria de "doença ligada ao trabalho", mas as medidas de prevenção da sua exposição, mesmo após a proibição da sua utilização no espaço europeu há décadas, digamos, podiam ser bastante melhores em situações passadas em que foi utilizado. A tal propósito basta ter presente as notícias do atraso da sua remoção após a sua esperada efetivação, a fazer fé em notícias frequentes nos media!


Os artigos recentes que deixo na bibliografia, acessíveis online, decorrentes de um processo de doutoramento, ilustram, de certo modo, a minha tese e demonstram um grande fosso entre o diagnóstico de algumas doenças e a sua origem profissional. Se calhar alguns pensaram que havia muitas neoplasias causadas pelo amianto em países mais ricos da Europa e que em Portugal, com um clima mais "quentinho", não existiam. Talvez se tenham esquecido de que o amianto não foi usado só como isolante térmico, mas amplamente usado na Construção Civil (e em outras indústrias) e não apenas em estruturas de cobertura, para não falar nos milhares de trabalhadores que trabalharam em empresas que o utilizavam.


É que o trabalho dará por certo saúde, mas não é menos verdade que também pode causar doenças e acidentes e que até poderá matar. Talvez recordando isso se possa dar igual importância à máxima "o trabalho dá saúde" que alguns acrescentam "então que trabalhem os doentes" revelador de alguma iliteracia nessa matéria.


Bibliogafia

  • Santos, C., Dixe, M.D.A., Sacadura-Leite, E., Astoul, P., Sousa-Uva, A. Asbestos Exposure and Malignant Pleural Mesothelioma: A Systematic Review of Literature. Portuguese Journal of Public Health, 2022, 40(3), pp. 188–202.

  • Santos, C., Sacadura-Leite, E., Ferreira, J., Dixe, MDA, Astoul, P., Sousa-Uva. The Peural Mesothelioma Cases and Mortality in Portugal in 2014–2020: A Descriptive Study. Healthcare Switzerland, 2024, 12(11), 1103.