Translate

domingo, 1 de fevereiro de 2026

 


Antonio Sousa-Uva

Há muitos anos, no computador em que trabalhei e escrevi a minha tese de doutoramento, um 386, o screen saver que coloquei tinha o título de mais esta "migalha". De facto, na União Europeia existem cerca de 500 mortes diárias por doença "relacionada com o trabalho" e 10 por acidente de trabalho mortal (anualmente, 170.000 e 3.300 respetivamente). Claro que a União Europeia tem cerca de 450 milhões de habitantes, o que significa uma proporção relativamente baixa, mas, como dizia um meu anterior Professor e Chefe de Serviço, "... não te esqueças, que os que morrem, morrem 100% ...".


Como tenho vindo a escrever e a palestrar há umas dezenas de anos:


Porque será que nos tocam tanto as mortes causadas por acidentes de trabalho e tão pouco as causadas por "doenças relacionadas com o trabalho"? Será o dramatismo da ocorrência que determina tal diferença? ou, em alternativa, quem não sabe (ou não conhece) não é tocado?


Ainda, em alternativa, se nos tocam de igual modo, por que será que se investe alguma coisa (não posso dizer assim tão pouco) na prevenção dos acidentes de trabalho mortais e quase nada (não posso dizer absolutamente) na prevenção das "doenças relacionadas com o trabalho"?


Será o dramatismo das situações e o seu (relativamente) fácil reconhecimento que estão na base daquela desproporção que é ainda maior no número de ocorrências?


Não tenho respostas unívocas para estes e outros tipos de perguntas, mas o que estará, por certo, na sua origem será, eventualmente, o paradoxo dos responsáveis por essas matérias acharem que falarem nos assuntos é sinónimo de medidas concretas de prevenção? Ou, pior ainda, inscreverem a sua prevenção em programas plurianuais e acharem que isso previne a sua ocorrência? Claro que não é.


Talvez a forma mais expedita de ilustrar essa realidade seja evocar a exposição profissional ao amianto. Será, na atualidade, talvez o agente profissional mais falado em matéria de "doença ligada ao trabalho", mas as medidas de prevenção da sua exposição, mesmo após a proibição da sua utilização no espaço europeu há décadas, digamos, podiam ser bastante melhores em situações passadas em que foi utilizado. A tal propósito basta ter presente as notícias do atraso da sua remoção após a sua esperada efetivação, a fazer fé em notícias frequentes nos media!


Os artigos recentes que deixo na bibliografia, acessíveis online, decorrentes de um processo de doutoramento, ilustram, de certo modo, a minha tese e demonstram um grande fosso entre o diagnóstico de algumas doenças e a sua origem profissional. Se calhar alguns pensaram que havia muitas neoplasias causadas pelo amianto em países mais ricos da Europa e que em Portugal, com um clima mais "quentinho", não existiam. Talvez se tenham esquecido de que o amianto não foi usado só como isolante térmico, mas amplamente usado na Construção Civil (e em outras indústrias) e não apenas em estruturas de cobertura, para não falar nos milhares de trabalhadores que trabalharam em empresas que o utilizavam.


É que o trabalho dará por certo saúde, mas não é menos verdade que também pode causar doenças e acidentes e que até poderá matar. Talvez recordando isso se possa dar igual importância à máxima "o trabalho dá saúde" que alguns acrescentam "então que trabalhem os doentes" revelador de alguma iliteracia nessa matéria.


Bibliogafia

  • Santos, C., Dixe, M.D.A., Sacadura-Leite, E., Astoul, P., Sousa-Uva, A. Asbestos Exposure and Malignant Pleural Mesothelioma: A Systematic Review of Literature. Portuguese Journal of Public Health, 2022, 40(3), pp. 188–202.

  • Santos, C., Sacadura-Leite, E., Ferreira, J., Dixe, MDA, Astoul, P., Sousa-Uva. The Peural Mesothelioma Cases and Mortality in Portugal in 2014–2020: A Descriptive Study. Healthcare Switzerland, 2024, 12(11), 1103.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A Saúde Ocupacional é um investimento, nunca um custo!

 


Antonio Sousa-Uva

A Saúde Ocupacional no seu sentido mais amplo é uma área científica, multi(e trans)disciplinar, que objetiva um ambiente de trabalho saudável, seguro e satisfatoriamente confortável e um trabalhador saudável, ativo e produtivo, sem doenças naturais ou profissionais e apto e motivado para o exercício da sua atividade profissional, com satisfação e desenvolvendo-se de forma pessoal e profissional.

O trabalho pode afetar positivamente ou negativamente a saúde, sendo a prevenção dos riscos profissionais, principalmente das doenças profissionais e dos acidentes de trabalho, as componentes mais valorizadas, ainda que os fatores profissionais possam influenciar a saúde de muitas outras formas. O número e a diversidade dos fatores de risco para a saúde potencialmente existentes num ambiente de trabalho são consideráveis, diversificados e relacionados com a atividade e as condições em que é exercida. Esses fatores são tradicionalmente classificados, consoante a sua natureza, em fatores físicos, químicos, (micro)biológicos, psicossociais e relacionados com a atividade (ergonómicos, para alguns autores). Essas cinco categorias de fatores de risco são suscetíveis de causar efeitos adversos à saúde.

As pessoas que trabalham não devem perder a vida a ganhá-la e, consequentemente, é imperioso que se valorize o trabalho como atividade central da vida humana isenta de riscos profissionais ou, no mínimo, ambientes de trabalho em que o seu controlo seja efetivo em ambientes de trabalho compatíveis com as situações (de saúde) concretas dos trabalhadores.

Ao longo da vida ativa sabe-se, por exemplo, que a capacidade física, medida através da capacidade cardiorrespiratória, da força máxima voluntária ou da capacidade musculoesquelética, declina com a idade, para não se referir à diminuição das capacidades auditiva e visual mais perceptíveis por todos. Tal determina que as exigências do trabalho e as condições em que o trabalho é realizado sejam concebidas para os trabalhadores concretos que constituem a força de trabalho e não para um estereótipo de “trabalhador médio” a que frequentemente se recorre.

A falência (ou insuficiência) das intervenções na promoção da saúde no trabalho e na prevenção (médica e ambiental) dos riscos profissionais também pode determinar a ocorrência de doenças profissionais e de acidentes de trabalho com os decorrentes danos para a saúde, como já se referiu, determinando a necessidade da sua reparação. O estabelecimento de incapacidades permanentes resultantes daqueles danos consequenciais, por exemplo, de sequelas irreversíveis deve determinar a adaptação do trabalho às capacidades restantes dos trabalhadores. O trabalho não deve por isso ser considerado imutável, devendo adaptar-se a esse trabalho os trabalhadores concretos que o realizam, mesmo em situações que possam surgir, com necessidades de readaptação, recolocação ou, até mesmo, reconversão.