Antonio Sousa Uva
Não sei se terão constatado (ou "realizado", como alguns agora dizem ...) que metade (ou mais) das mortes que as recentes tempestades causaram são consequência de acidentes pessoais ou de trabalho. Não poderia existir um exemplo mais marcado da nossa falta de "cultura de prevenção".
O grande busílis da questão é que a nossa memória é muito "volátil" e, breve, breve, já teremos esquecido o dramatismo desses acontecimentos que apenas alguns recordarão na próxima situação facilitadora desse tipo de acontecimentos.
Vem isto a propósito da propalada "cultura de segurança" a que vamos ouvindo fazer referência na área da SST (Saúde e Segurança do Trabalho). A nossa cultura mais prevalente é a cultura do "desenrasca" ou mesmo do "danger is my business" tão frequente entre nós. Recordo em alguns meios dos operários de empresas onde trabalhei a adjetivação depreciativa que por vezes se fazia a trabalhadores (uma minoria) que chamavam a atenção para esses aspetos em meio industrial. Recordo ainda um acidente de trabalho mortal ocorrido em que essa atitude terá eventualmente contribuído para a sua ocorrência, após análise da sua árvore das causas.
A reflexão que queria desencadear com estas considerações é sobre o que devemos fazer para criar uma cultura de prevenção que substitua, pelo menos gradualmente, a referida cultura facilitadora daquele tipo de acidentes. Demorará, por certo, uma ou duas gerações, o que não é muito "sexy", digamos. Mas é igualmente verdade que se deixarmos passar mais uma geração, demorará duas ou três ... Como disse muitas vezes na minha atividade de médico do trabalho "devagar que temos pressa" na criação de uma verdadeira cultura de prevenção!

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