Antonio Sousa-Uva
As relações trabalho/saúde(doença) são quase sempre perspectivadas patogenicamente, através dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais. No entanto essas relações são muito mais complexas e, adicionalmente, não valorizam a perspectiva da promoção da saúde no local de trabalho e a manutenção da capacidade de trabalho. A proposta é de, em pequenas "migalhas", reflectir nesses diversos temas.
Antonio Sousa-Uva
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
Antonio Sousa-Uva
Tenho feito, a propósito da publicação dos dados da Direção-Geral da Saúde do aumento mantido de casos de violência sobre médicos e outros profissionais de saúde, desde 2020, sem saber ao certo se tal corresponde a um aumento desses episódios ou ao aumento da sua notificação. Tudo leva a crer que ambos parecem coexistir.
O Observatório Nacional da Violência Contra os Profissionais de Saúde no Local de Trabalho, desenvolvido pela DGS há alguns anos, com o objetivo de disponibilizar um sistema de notificação online dos episódios de violência tem sido, efetivamente, muito útil. Indicam agora os dados recolhidos que, em 2925, ocorreram 3.429 casos de violência contra profissionais do Serviço Nacional de Saúde, a que corresponde, mais uma vez, um aumento em relação ao ano anterior.
A grande maioria são casos de violência psicológica (2.067) que são bem superiores aos de violência física (730)-
Mantenho as questões que tenho colocado.
Será que temos feito o suficiente para a prevenção dos episódios que aquele Observatório nos revela?
Será que se tem feito o suficiente para a prevenção desses (e de outros) fatores de risco de natureza profissional?
Será que se dá igual importância ao diagnóstico de situação e à implementação de medidas concretas de prevenção?
Será que o foco no aumento da penalização é suficiente para lidar com esse flagelo?
Para quem circunscreve os fatores de risco profissionais em médicos e outros profissionais de saúde aos agentes microbiológicos, como foi o caso recente do SARS-Cov2, é uma boa ocasião para dar mais visibilidade à atividade de trabalho do que às condições em que é exercida. Existem inúmeros outros factores relacionados não só com as condições de trabalho, mas também com a atividade concreta que também não se esgotam na violência.
Julgo que (em média) cerca de dez episódios diários de violência infligida a médicos e outros profissionais de saúde, em 2025, deveriam determinar mais "músculo" na sua prevenção. É que se presume, obviamente, que aquele Observatório observa para agir. A questão que se coloca é se tem sido suficiente essa ação?
Nota: Publicado, anteriormente em versão ligeiramente diferente, em Healthnews.
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
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Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
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Antonio Sousa-Uva
Recentemente, em novembro de 2023, a União Europeia atualizou a Diretiva
2009/148/CE (Diretiva - UE 2023/2668 do Parlamento e do Conselho Europeu,
adotada em 22 de novembro de 2023) para reforçar a proteção dos trabalhadores à
exposição ao amianto. Para além da alteração de determinadas medidas concretas
de prevenção, a Diretiva foca-se na redução enérgica dos limites de exposição nos
locais de trabalho e, sobretudo, num maior rigor nos métodos de medição.
A concentração máxima admissível (CMA) foi consideravelmente reduzida e o
rigor metodológico de detecção de fibras passa a exigir um método de muito maior
sensibilidade (na perspetiva científica), principalmente nas fibras mais finas.
Para tanto, é traçado um tempo de transição até 2029 e uma redução ainda mais
drástica da CMA se não forem mensuradas aquelas fibras finas.
Há umas dezenas de anos fui, durante muito tempo (cinco a seis deslocações
anuais ao Luxemburgo durante alguns anos), perito científico da CEE para a área
da fixação (indicativa) de concentrações máximas admissíveis e recordo as então
bem fogosas discussões em matéria de fixação de CMA para substâncias
cancerígenas, designadamente em relação à exposição ao amianto, dada a sua
natureza mais estocástica do que dose-dependente. Tanto então, como na
atualidade (e bem, em minha opinião), vingou a opção pela fixação de CMA.
A mesma Diretiva “aperta” agora, ainda mais, o controlo para as tarefas de
remoção de amianto e a obrigatoriedade de ter tal em consideração em trabalhos
de manutenção ou de demolição de edifícios vetustos.
Veremos o que se passará em concreto e se não se repetem histórias antigas
(mas ainda atuais) designadamente em edifícios públicos … Com certeza que só
existirá entre nós o meu ceticismo em relação a essas matérias. Pelo menos é
isso que mais desejo …
Nota: Publicado anteriormente na revista Segurança.
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
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António Sousa-Uva
Em 28 de abril, celebra-se mais um dia mundial da Saúde e Segurança do Trabalho. Poderia evocar mil e um aspectos para essa celebração, mas gostava apenas de evocar o direito constitucional a um trabalho saudável e seguro que, apesar dessa garantia constitucional, nem sempre merece suficiente empenho dos diversos intervenientes, incluindo a dos técnicos encarregados da sua prevenção. Fica-se, demasiadamente, mais na forma do que no conteúdo ...
A proposta para reflectir nesse dia comemorativo poderia circunscrever-se à necessidade de investir mais em ações concretas de proteção da saúde e da segurança de quem trabalha do que à sua constante evocação (uma espécie de "muita parra e pouca uva"). É que pode mesmo dizer-se que se vai mudando para ficar tudo na mesma ...
É que, a manter-se o panorama "habitual", pode existir quem possa pensar que se investe mais em "fazer de conta" de que se faz do que em fazer ...
Pode ser que, apesar de tudo, as coisa melhorem um pouco ... pelo menos eu continuo a acreditar nisso!
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
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Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
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Antonio Sousa-Uva
Mais um dia 7 de abril, mais uma comemoração de um “Dia Mundial da Saúde”, este ano evocando a sua ligação à ciência e a sua avaliação integrada (o conceito "one Health") e em Portugal ainda a chamada de atenção para aspetos da obesidade.
O “empoderamento” em saúde, componente essencial do Direito à Saúde, exige uma maior literacia que não se esgota na acessibilidade aos serviços de saúde. Parafraseando outros "há mais Saúde para além das urgências e dos partos"...
A reflexão que tais formas de comemoração pretendem promover são excelentes oportunidades para que todos, e cada um de nós, possam valorizar aspectos que são verdadeiros alicerces de um bem que é (ou deveria ser) um verdadeiro património que, como qualquer outro, exige o mínimo de manutenção e não se esgota nos aspectos da acessibilidade que, obviamente, catalisam a atenção de todos nós. Por exemplo, a chamada de atenção para os aspectos que a ligam ao Trabalho, quer nos aspectos positivos, quer nos negativos.
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Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
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Antonio Sousa-Uva
Os aspetos relativos às patologias do foro imunoalérgico ligadas ao ambiente de trabalho tem adquirido uma importância crescente nos últimos quarenta a cinquenta anos. As doenças alérgicas afastam-se muito do modelo tradicional das doenças profissionais, uma vez que a dose de exposição poderá ter influência na sensibilização, mas o trabalhador, uma vez sensibilizado, é susceptível de ter manifestações clínicas da doença independentemente da intensidade (ou da dose) de exposição.
Talvez o maior problema das doenças alérgicas profissionais resida na decisão sobre a aptidão para o trabalho já que diversos estudos revelam que, uma vez feito o diagnóstico, a manutenção da exposição profissional pode agravar muito a patologia, mesmo em contexto extraprofissional e manter-se mesmo após o afastamento do agente profissional.
As manifestações alérgicas ligadas ao trabalho podem ter diversas localizações, assinalando-se, pela sua importância, os seguintes principais órgãos alvo: a árvore respiratória (asma, alveolites alérgicas extrínsecas e rinites) e a pele (eczema de contato, urticária ou edema de Quincke). A alergia profissional pode ainda traduzir-se por manifestações oculares (conjuntivites e uveítes, por exemplo) e menos frequentemente, reações sistémicas mais ou menos graves com atingimento dos órgãos alvo e, mais raramente, a anafilaxia.
Mas o que é frequente é frequente e o que é raro é raro e as principais formas clínicas são, no essencial, a asma, a rinite alérgica e o eczema de contato alérgico.
O atual conhecimento científico das suas relações dose-efeito(resposta) é muito incompleto, parecendo que quanto maior for a intensidade e o tempo de exposição, maior é a probabilidade de ocorrência do quadro clínico, o que tem justificado a fixação de concentrações máximas admissíveis (ou valores limite) de exposição com notação à natureza alergénica.
Os agentes etiológicos são extremamente numerosos e englobam substâncias orgânicas, macromoléculas simples e outras substâncias não macromoleculares.
Talvez a principal alergopatia profissional seja a asma que, no contexto das doenças respiratórias profissionais, tem vindo a adquirir grande protagonismo, desalojando as doenças respiratórias dose-dependentes, como é o exemplo típico da silicose. Trata-se de uma doença caracterizada por obstrução brônquica variável e por uma hiper-reatividade brônquica, também variável, ambas causadas por fatores de risco profissionais que desencadeiam uma doença inflamatória crónica das vias aéreas.
Os mecanismos de broncoconstrição são incompletamente conhecidos envolvendo a broncoconstrição reflexa (ação direta nos receptores brônquicos), a reação inflamatória (gases e partículas com ação irritativa), farmacológica (semelhante a fármacos, como os organofosforados, os persulfatos e as aminas aromáticas) e imunológica (haptenos ou alergénios, reação IgE mediada ou não). Nalguns casos, como por exemplo na bissionose, parecem coexistir diversos desses mecanismos de broncoconstrição.
Outra alergopatia muito frequente é a rinite alérgica profissional, muitas vezes a primeira manifestação de uma alergia respiratória relacionada com o trabalho. Ainda que possa aparecer isolada, a rinite é muitas vezes um sinal de “alarme” de uma asma profissional. São disso um bom exemplo as atividades em padarias e o trabalho com animais (incluindo os de laboratório). As suas manifestações clínicas são, no essencial, as crises esternutatórias, muitas vezes em salva, o prurido nasal, a rinorreia e a obstrução nasal.
Finalmente, os eczemas de contacto alérgicos caracterizam-se por uma reação de hipersensibilidade retardada em que o alergénio (ou hapteno) reage com as células de Langerhans que o apresentam aos linfocitos T que culminará em memória imunológica e células efetoras (a chamada fase de sensibilização). Qualquer novo contato desencadeia a libertação de citocinas, interferão e a ativação dos macrófagos (a chamada fase de revelação). Talvez o eczema alérgico de contato mais característico seja o eczema dos pedreiros, resultante da sensibilização a dois metais, o crómio e o cobalto.
Como sucede em todos os riscos profissionais, as principais medidas de prevenção deverão centrar-se na prevenção coletiva, atribuindo grande prioridade mais à substituição do que à redução do agente causal. Em meio hospitalar, a utilização cada vez mais criteriosa de luvas de látex e a sua substituição por luvas sem látex é disso um bom exemplo. Também, entre muitas outras, a máxima hermetização de fases do processo fabril com exposição a agentes causais de alergia profissional tem indiscutível importância. Quaisquer que sejam as medidas, não se devem circunscrever apenas aos fatores de risco individuais essas medidas de gestão de riscos profissionais.
Nota: publicado antes na newsletter da plataforma Linkedin
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