Antonio Sousa-Uva
Assinalava, à data, ainda um nosso recente estudo num grande hospital em Lisboa, observacional e transversal, que teria revelado uma insuficiência de respostas organizacionais adequadas num contexto de livre acesso a zonas de trabalho e ainda uma insuficiente proteção por agentes de segurança que, ultimamente, tem, de facto, melhorado.
Aparentemente, a pouca familiaridade dos
prestadores de cuidados com os procedimentos internos de notificação então
identificada (dados anteriores a 2020) foi caracterizada como área carenciada
de melhoria, bem como a insuficiente expressividade das estratégias
intervencionistas destinadas a incrementar essas melhorias. Daí para cá tais
aspetos têm, de facto, também vindo a ser melhorados.
Mas essa melhoria será suficiente?
Se assim for, por certo, a frequência desses
episódios terá tendência a reduzir-se?
O referido Observatório Nacional da Violência
Contra os Profissionais de Saúde no Local de Trabalho, desenvolvido pela DGS há
alguns anos, com o objetivo de disponibilizar um sistema de notificação online dos
episódios de violência tem sido, efetivamente, muito útil. Indicam agora os
dados recolhidos que, em 2024, foram reportados 2581 episódios (dos quais quase
600 de violência física), o que representa, apesar das medidas implementadas,
novo aumento em relação a 2023. E, releve-se, são ,em média, quase dois
episódios diários de violência física sobre trabalhadores …
Será que temos feito o suficiente para a
prevenção dos episódios que aquele Observatório nos revela?
Será que se tem feito o suficiente para a
prevenção desses (e de outros) fatores de risco de natureza profissional?
Será que se dá igual importância ao
diagnóstico de situação e à implementação de medidas concretas de prevenção?
É que os fatores de risco profissionais em
médicos e outros profissionais de saúde não se circunscrevem aos agentes
microbiológicos, como foi o caso recente da COVID19 em prestadores de cuidados
ou em outras situações com risco específico de exposição ao agente. Existem
inúmeros outros factores relacionados não só com as condições de trabalho, mas
também com a atividade concreta.
Julgo que (em média) mais de sete episódios
diários de violência infligida a médicos e outros profissionais de saúde, em
2024, deveriam determinar respostas mais "musculadas" de prevenção. É
que se presume, obviamente, que aquele Observatório
determina aspetos de diagnóstico que só se entendem como informação
determinante para a ação "terapêutica" desses mesmos riscos
psicossociais, que, parece-me, será por certo o pretendido! Ou estarei
completamente equivocado?
Nota: Publicado, anteriormente, em Healthnews.
