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quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Saúde e Segurança Ocupacionais: inter, trans ou pluridisciplinaridade?

 


Antonio Sousa-Uva

A Medicina do Trabalho, e outras disciplinas centradas essencialmente nos indivíduos, intervêm, frequentemente, não tendo em conta a componente ambiental e evitando, dessa forma, a complexidade das interdependências entre os trabalhadores, o ambiente de trabalho e o ambiente extraprofissional. Por outro lado, a Segurança e Higiene do Trabalho centra-se, quase sempre, nos factores “ambientais” e desvaloriza, frequentemente, os aspectos individuais e, quando o faz, a perspetiva é, muitas vezes, centrada numa dimensão que se aproxima (ou fica na vizinhança) do conceito de "culpa".

É o “refúgio”, frequente, na “segurança” das metodologias de cada área de conhecimentos (as respetivas zonas de conforto), que tornam, frequentemente, “míopes” as abordagens no mundo do trabalho, sempre complexo e carenciado de intervenções, que deveriam ser mais transdisciplinares do que pluridisciplinares. Tal observa-se, de resto, em muitas outras áreas de conhecimento e essa "transversalidade" é, muitas vezes "colonizada" por "jogos de poder corporativos" que gravitam na sua intervenção. Claro que não é alheio a tais jogos de poder o reconhecimento público das diversas áreas profissionais implicadas e o seu "prestígio" social, que interpela os diversos intervenientes.

O resultado final do “isolamento” desses dois tipos de abordagens, muitas vezes externalizadas e até, às vezes, prestadas por diferentes empresas, é por certo redutor do resultado pretendido: a protecção e a promoção da saúde das pessoas que trabalham por oposição ao cumprimento das normas legais que se esgota, frequentemente, muito mais na forma do que no conteúdo. Se não existissem outras razões relacionadas com a qualidade da aplicação da(s) metodologia(s) de diagnóstico e gestão das situações de risco, só essas finalidades tornariam, por si só, indispensável a implementação de abordagens mais “integradas” do diagnóstico e gestão das situações de risco em Saúde e Segurança do Trabalho.

Os médicos do trabalho e os restantes técnicos de Saúde e Segurança do Trabalho efectivamente empenhados na prevenção dos riscos profissionais não têm qualquer alternativa à “cooperação” e ao trabalho em equipa, se valorizarem mais a Saúde e Segurança dos trabalhadores do que aspectos de protagonismo ou de valorização corporativa. Igual afirmação poderia ser endereçada a outros técnicos intervenientes nas relações trabalho/saúde(doença) cada vez mais necessários ao atual contexto das situações de trabalho em que não predominam os fatores de risco de natureza física ou química na génese das doenças profissionais e dos acidentes de trabalho.

O resultado final da transdisciplinaridade, que se "escora" mais na interdisciplinaridade do que na pluridisciplinaridade, na avaliação e gestão dos riscos profissionais é, seguramente, mais rigoroso e eficaz que o resultado das abordagens setoriais das diversas disciplinas e, mais ainda, quando atuam isoladamente. De facto, as situações de risco profissional envolvem toda a complexidade inerente ao indivíduo, às condições de trabalho e à actividade desenvolvida e, por isso, devem integrar as especificidades e competências próprias das diversas áreas disciplinares que possam, de alguma forma, contribuir para a sua prevenção. 

Tal no entanto parece esgotar-se mais na sua evocação do que na sua intervenção na melhoria das condicionantes do trabalho que permanece ainda, e salvo melhor opinião, muito "fragmentada", se não mesmo "isolada".

Quando é que todos passamos a investir mais na ação do que na evocação dessas disciplinas?

Quando é que todos nós paramos de inverter as prioridades de atuação e nos focamos mais no objeto de intervenção corretiva do que no valor relativo de cada interveniente?

Continuo a achar que os "atores" no mundo do trabalho têm uma tal desproporcionalidade que compete aos diversos técnicos de prevenção essa iniciativa. As Políticas Públicas nesse domínio dependem muito mais dos aspetos convergentes desse trio de "atores" do que dos aspetos divergentes. Depende, por isso, muito mais de nós essa mudança, que vai sendo adiada, do que do poder político que determina aquelas políticas públicas. Do que estamos então à espera para nos focarmos mais no resultado do que nas intervenções para o atingir?