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quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Doenças alérgicas profissionais



 Antonio Sousa-Uva

As doenças alérgicas, com importância crescente nos últimos 30 a 40 anos, afastam-se muito do modelo tradicional das doenças profissionais, uma vez que a dose de exposição poderá ter influência na sensibilização mas o trabalhador, uma vez sensibilizado, é susceptível de ter manifestações clínicas da doença independentemente da intensidade (ou da dose) de exposição.

 

Talvez o maior problema das doenças alérgicas profissionais resida na decisão sobre a aptidão para o trabalho já que diversos estudos revelam que uma vez feito o diagnóstico, a manutenção da exposição profissional pode, em muitos casos, agravar a patologia e manter-se mesmo após o afastamento do agente profissional.

 

As manifestações alérgicas ligadas ao trabalho podem ter diversas localizações assinalando-se, pela sua importância, a árvore respiratória (asma e alveolites alérgicas extrínsecas) e a pele (eczema de contato, urticária ou edema de Quincke). A alergia profissional pode ainda caracterizar-se por manifestações oculares (conjuntivites e uveítes, por exemplo) e menos frequentemente, por reações sistémicas graves como a anafilaxia.

 

As principais formas clínicas são a asma alérgica, a rinite alérgica e o eczema de contato alérgico.

 

O atual conhecimento científico das relações dose-efeito(resposta) destas patologias é muito incompleto parecendo que quanto maior for a intensidade e o tempo de exposição, maior é a probabilidade de ocorrência do quadro clínico. Tal tem justificado a fixação de concentrações máximas admissíveis (ou valores limite) de exposição.

 

Os agentes etiológicos são extremamente numerosos e englobam substâncias orgânicas, macromoléculas simples e outras substâncias não macromoleculares.

 

Talvez a principal alergopatia profissional seja a asma que, no contexto das doenças respiratórias profissionais, tem vindo a adquirir o principal protagonismo, desalojando as doenças respiratórias dose-dependentes, como é o exemplo típico da silicose. Trata-se de uma doença caracterizada por obstrução brônquica variável e por uma hiper-reactividade brônquica, também variável, ambas causadas por agentes profissionais. O denominador comum é ser uma doença inflamatória crónica das vias aéreas.

 

Os mecanismos de broncoconstrição são incompletamente conhecidos envolvendo a broncoconstrição reflexa (ação direta nos recetores brônquicos), a reação inflamatória (gases e partículas com ação irritativa), farmacológica (semelhante a fármacos, como os organofosforados, os persulfatos e as aminas aromáticas) e imunológica (haptenos ou alergénios, reação IgE mediada ou não). Nalguns casos, como por exemplo na bissinose, parecem coexistir diversos mecanismos de broncoconstrição.

 

Outra alergopatia muito frequente é a rinite alérgica profissional, muitas vezes a primeira manifestação de uma alergia respiratória relacionada com o trabalho. Ainda que possa aparecer isolada a rinite é muitas vezes um sinal de “alarme” de uma asma profissional. São disso um bom exemplo as atividades em padarias e o trabalho com animais (incluindo os de laboratório). As suas manifestações clínicas são as crises esternutatórias, muitas vezes em salva, o prurido nasal, a rinorreia e a obstrução nasal.

 

Finalmente, os eczemas de contacto alérgicos caracterizam-se por uma reação de hipersensibilidade retardada em que o alergénio (ou o hapteno) reage com as células de Langerhans que o apresentam aos linfocitos T que culminará em memória imunológica e células efectoras (a chamada fase de sensibilização). Qualquer novo contacto desencadeia a libertação de citocinas, interferão e a ativação dos macrófagos (a chamada fase de revelação).

 

Talvez o eczema alérgico de contacto mais característico seja o eczema dos pedreiros, resultante da sensibilização a dois metais, o crómio e o cobalto.

 

O modelo de prevenção dos riscos profissionais, centrado no ambiente de trabalho, é essencialmente concebido para fatores de risco de natureza profissional dose-dependentes. Algumas variáveis de natureza individual, como por exemplo a atopia pode ser um fator muito importante na exposição profissional a faneras de animais mas  não terá tanta importância noutros casos, por exemplo, na exposição a substâncias químicas de baixo peso molecular.

 

As principais medidas de prevenção deverão centrar-se na prevenção coletiva, atribuindo grande prioridade à substituição do agente causal. A utilização cada vez mais criteriosa de luvas de látex e a sua substituição por luvas sem látex é disso um bom exemplo. Também a máxima hermetização de fases do processo fabril com exposição a agentes causais tem indiscutível importância. 


Quaisquer que sejam as estratégias de gestão de riscos, não se devem circunscrever aos fatores de risco individuais as principais medidas de gestão desses riscos profissionais.

 

 

 

Lisboa, 22 de dezembro de 2021




Nota: Baseado nos dois textos referidos na bibliografia


Bibliografia

 

  • Sousa-Uva A. O médico do trabalho e as doenças alérgicas profissionais. Lisboa: Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho (Cadernos Avulso 02), 2000. Em linha. Disponível em: http://www.spmtrabalho.com/downloads/ca02.pdf, consultado em 12-12-2021.

  • Sousa-Uva A. Doenças alérgicas profissionais In: Mendes R. Dicionário de Saúde e Segurança do Trabalhador: Conceitos – Definições – História – Cultura. Novo Hamburgo: Proteção Publicações, 2018. 1.280 p. isbn:978-85-67121-01-7. 

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