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terça-feira, 4 de julho de 2023

Trabalhadores e Ambiente psicossocial profissional: a perspectiva “do pé e do sapato”!

 


Antonio Sousa-Uva


No trabalho é, quase sempre, o stress (relacionado com o trabalho, profissional ou ocupacional, como se prefira) que nós associamos ao seu ambiente psicossocial. Claro que existem inúmeros outros riscos profissionais de natureza psicossocial dos quais, nos nossos dias, o burnout é, talvez, senão o mais visível, o mais falado (nem sempre da forma mais correcta) em determinadas profissões e/ou atividades profissionais. Ficam mesmo assim muitos outros por abordar como a violência, os distúrbios da ansiedade ou a depressão, por exemplo.


O stress configura, quase sempre, uma situação de desarmonia entre as necessidades do indivíduo e as exigências do trabalho, ainda que existam muitas outras teorias explicativas da sua etiologia, bem mais complexas e talvez muito mais rigorosas da sua génese.


Em Saúde e Segurança do Trabalho (SST) a abordagem dos fatores de risco profissionais, na perspetiva da sua prevenção, tem-se centrado, essencialmente, nos factores de risco tradicionais, como são os exemplos das substâncias químicas ou dos agentes físicos. Os aspectos psicossociais, por exemplo, relacionados com a organização do trabalho ou as interacções (verticais, ascendentes ou descendentes, ou transversais) entre colegas de trabalho e chefias ou o trabalho de equipa, vão ficando muitas vezes totalmente esquecidos. Acresce a circunstância dos modelos de avaliação e gestão do risco se basearem, essencialmente, naqueles factores de risco tradicionais e não servirem tão bem para os factores psicossociais, microbiológicos e relacionados com a actividade (ou ergonómicos se se preferir).


A grande mudança nos sectores de actividade económica e as grandes transformações da organização do trabalho são dois, entre muitos outros, aspectos que, pelo menos parcialmente, poderão explicar novas interacções entre o trabalho e a saúde(doença) e situações de risco totalmente diversas das clássicas (ou tradicionais)


E o que têm feito as empresas (e outras organizações) para lidar com essa nova realidade?

Serão adequadas as  exigências legais para a prevenção desses riscos psicossociais de natureza profissional?

Serão os modelos actuais de organização da saúde e segurança os mais adequados para lidar com essa nova realidade?

Serão os técnicos de Saúde e Segurança, actualmente em funções, suficientes (e capazes de) para lidar com esses novos riscos?

A área da Saúde Mental e Trabalho tem sido suficientemente valorizada?


A actual perspectiva dominante é a da selecção de trabalhadores, que denominei há uns anos “todo-o-terreno” (“o pé”), para qualquer posto de trabalho (“o sapato”) (Kompier e Levi, 1994) de que a referência à “resiliência” é um bom exemplo. Mas o que fazer? entre outros:  (i) “procurar o sapato certo para o pé certo” (ii) “adaptar o sapato ao pé”; ou (iii) “fortalecer o pé para se adaptar ao sapato”. Qualquer que seja a opção, talvez não fosse má ideia considerar sempre que o “sapato” é mutável em vez de procurar, quase sempre, o seu “pé certo”.


De facto, quase toda a nossa atenção se tem centrado no “pé” (leia-se trabalhador) mesmo que, caricaturalmente, o sapato (posto de trabalho) seja um desadequado ou mesmo desajustado, por exemplo, um número 44 para um pé 36 … É a vetusta perspetiva do trabalho imutável e da “seleção” de trabalhadores para esse trabalho, digamos “esclerosado”. Essa é uma perspetiva muito prevalente, ainda que clássica e pouco adequada, de muitas organizações na admissão de recursos humanos (leia-se “pessoas”) em vez do maior enfoque na boa concepção do trabalho e na prevenção dos riscos profissionais, na promoção da saúde e na manutenção da capacidade trabalho centradas na “pessoa a trabalhar” que é o que é suposto que a Saúde (e Segurança) Ocupaciona(is)l faça(m) (SST). Se assim é, será o nosso actual modelo de prestação de cuidados de SST o mais adequado a essa nova realidade? talvez não seja má ideia reflectir um pouco mais sobre esses aspectos!

 

Bibliografia

  • Kompier M, Levi L. Stress at Work: Causes, Effects, and Prevention. Dublin.European Foundation for the Improvement of Living and Working Conditions, 1994.



N    Nota: Publicado inicialmente em Healthnews.

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