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domingo, 1 de dezembro de 2024

Cultura de Saúde e Segurança ou cultura do "desenrasca"?

  



Antonio Sousa-Uva


O improviso e a capacidade de resolver dificuldades de forma expedita, ou mesmo improvisada (e com poucos meios), é uma característica frequentemente atribuída aos portugueses que em muitos casos se constituem totalmente exímios nessas funções. Trata-se de uma forma de adaptação à realidade que é muitas vezes encarada como uma capacidade indispensável à execução de uma qualquer atividade, muitas vezes perspectivada como um dom, principalmente em trabalhos exigentes, sem grande complexidade tecnológica.

A segurança (safety), em alternativa, é quase sempre "chata", pouco sexy e até mesmo supérflua, muitas vezes, encarada como uma "complicação" de tarefas que poderiam ser bem mais fáceis se não fossem cumpridas, o que poderíamos denominar genericamente como regras (de segurança). Um bom exemplo poderia ser ilustrado com a escolha prioritária muito prevalente de alguém que faça o que se pretende fazer de forma expedita, simplificando a abordagem a realizar mesmo que seja necessário improvisar e que, dessa forma, se (e nos) "desenrasque". 

O encarar o recurso a equipamentos de proteção coletiva ou individual como algo que "complica" o que tem que ser feito e que, por isso, pode não ser utilizado ou, se presente, é retirado para "facilitar" o trabalho. São bons exemplos disso a anulação de algumas proteções de máquinas para simplificar ou a não utilização de EPI por desconforto ou até "sobrecarga".

Um outro bom exemplo disso poderia ser ilustrado com outras estratégias de simplificação (leia-se anulação) de dispositivos de segurança de algumas máquinas. Os sistemas de prevenção de acidentes, utilizados há alguns anos, com lâminas do tipo "guilhotina" são bem elucidativos  de hábitos muito frequentes de "contornar" as exigências adicionais dos sistemas exigirem os dois membros superiores para acionar a lâmina de forma a prevenir acidentes. Nessa perspectiva, as regras de segurança são muitas vezes encaradas como algo que acrescenta dificuldade e não facilidade. 

Vêm estas considerações a propósito da referência, muito frequente em diversos textos de SST, da denominada "cultura de saúde e segurança" por oposição ao, mais prevalente, "danger is my business". Tal sugere-me um sem número de questões:

Estaremos a fazer o necessário para comutar o habitual "desenrascanço" para uma perspectiva de cumprimento de regras básicas de segurança? 

As regras de segurança farão parte das boas práticas para a maioria dos trabalhadores e das empresas?

Estarão os trabalhadores cientes das exigências que as preocupações de segurança sempre acarretam?

Faz-se, nesse domínio, o que se deveria fazer no processo pedagógico de formação dos nossos jovens e, concretamente, na formação profissional?

Saber-se-á o significado de cultura na formulação "moderna" da necessidade de prevenção do que é prevenível?

Entre muitas outras, estas são apenas algumas dúvidas e questões para quem parece ligar mais à forma do que ao conteúdo. Não será essa outra "cultura" que deveria ser combatida? É que a SST está disso repleta e, por isso, talvez também precise de investir um pouco mais em dotar-se, ela própria, de uma melhor "cultura de saúde e segurança"...

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