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terça-feira, 1 de abril de 2025

O trabalho nem sempre dá saúde e até pode matar!

 


Antonio Sousa-Uva


O modo como os factores profissionais intervêm na história natural de uma doença ou seja, o papel que desempenham na sua génese, na evolução ou no desfecho dessa mesma doença, permite classificar as situações nosológicas reconhecidamente "influenciáveis pelo trabalho" em três grandes categorias: 


(1) doença profissional e acidente de trabalho em que factores inerentes ao trabalho constituem condição "sine qua non" para a sua génese, cujo conceito jurídico, entre nós, apenas foi reconhecido em 1919; 

(2) doença relacionada com o trabalho (tradução literal, consagrada pelo uso, da expressão work-related disease) em que a influência do(s) factor(es) profissional(ais), diluída num contexto multifactorial, não tem carácter decisivo, e ainda 

(3) doença agravada pelo trabalho, em que a influência dos factores profissionais, não dizendo respeito à génese da doença, incide apenas na sua evolução e no correspondente resultado final.              

 

O número e a diversidade dos factores de risco para a saúde, potencialmente existentes num ambiente de trabalho, são consideráveis. Esses factores são tradicionalmente classificados, consoante a sua natureza, em factores físicos, químicos, biológicos, relacionados com a atividade e psicossociais. Essas cinco categorias de factores de risco são, potencialmente, susceptíveis de causar danos para a saúde. 


Existe, consequentemente, a necessidade de conceber o trabalho tendo em conta esses potenciais riscos cuja visibilidade é maior para os acidentes de trabalho (principalmente os mortais), bem menor para as doenças profissionais e quase nula para as doenças relacionadas e agravadas pelo trabalho.


Tal deveria determinar, desde logo, a necessidade de muito mais informação e formação sobre essas interdependências entre o trabalho e a doença (ou lesão), ainda que essa literacia não seja propriamente muito robusta. Tal reside na necessidade de antecipar essa probabilidade e atuar antes da sua ocorrência: a prevenção!


A prevenção dos riscos profissionais, qualquer que seja a respectiva estratégia de intervenção, implica inicialmente o diagnóstico das situações de risco (“risk assessment”) susceptíveis de indicar as respectivas estratégias de gestão desses mesmos riscos (“risk management”). O risco, nas sociedades modernas é inevitável sendo, consequentemente, inadiável a necessidade de o circunscrever à sua menor possibilidade de provocar efeitos negativos na saúde de quem trabalha. 


Será que fazemos o suficiente para, não sendo possível anular esses riscos, os reduzir à sua menor expressão probabilística?


Poderíamos fazer mais e melhor?