Translate

terça-feira, 10 de março de 2026

Doenças alérgicas profissionais: uma realidade com importância crescente

 


Antonio Sousa-Uva

Os aspetos relativos às patologias do foro imunoalérgico ligadas ao ambiente de trabalho tem adquirido uma importância crescente nos últimos quarenta a cinquenta anos. As doenças alérgicas afastam-se muito do modelo tradicional das doenças profissionais, uma vez que a dose de exposição poderá ter influência na sensibilização, mas o trabalhador, uma vez sensibilizado, é susceptível de ter manifestações clínicas da doença independentemente da intensidade (ou da dose) de exposição.

Talvez o maior problema das doenças alérgicas profissionais resida na decisão sobre a aptidão para o trabalho já que diversos estudos revelam que, uma vez feito o diagnóstico, a manutenção da exposição profissional pode agravar muito a patologia, mesmo em contexto extraprofissional e manter-se mesmo após o afastamento do agente profissional.

As manifestações alérgicas ligadas ao trabalho podem ter diversas localizações, assinalando-se, pela sua importância, os seguintes principais órgãos alvo: a árvore respiratória (asma, alveolites alérgicas extrínsecas e rinites) e a pele (eczema de contato, urticária ou edema de Quincke). A alergia profissional pode ainda traduzir-se por manifestações oculares (conjuntivites e uveítes, por exemplo) e menos frequentemente, reações sistémicas mais ou menos graves com atingimento dos órgãos alvo e, mais raramente, a anafilaxia.

Mas o que é frequente é frequente e o que é raro é raro e as principais formas clínicas são, no essencial, a asma, a rinite alérgica e o eczema de contato alérgico.

O atual conhecimento científico das suas relações dose-efeito(resposta) é muito incompleto, parecendo que quanto maior for a intensidade e o tempo de exposição, maior é a probabilidade de ocorrência do quadro clínico, o que tem justificado a fixação de concentrações máximas admissíveis (ou valores limite) de exposição com notação à natureza alergénica.

Os agentes etiológicos são extremamente numerosos e englobam substâncias orgânicas, macromoléculas simples e outras substâncias não macromoleculares.

Talvez a principal alergopatia profissional seja a asma que, no contexto das doenças respiratórias profissionais, tem vindo a adquirir grande protagonismo, desalojando as doenças respiratórias dose-dependentes, como é o exemplo típico da silicose. Trata-se de uma doença caracterizada por obstrução brônquica variável e por uma hiper-reatividade brônquica, também variável, ambas causadas por fatores de risco profissionais que desencadeiam uma doença inflamatória crónica das vias aéreas.

Os mecanismos de broncoconstrição são incompletamente conhecidos envolvendo a broncoconstrição reflexa (ação direta nos receptores brônquicos), a reação inflamatória (gases e partículas com ação irritativa), farmacológica (semelhante a fármacos, como os organofosforados, os persulfatos e as aminas aromáticas) e imunológica (haptenos ou alergénios, reação IgE mediada ou não). Nalguns casos, como por exemplo na bissionose, parecem coexistir diversos desses mecanismos de broncoconstrição.

Outra alergopatia muito frequente é a rinite alérgica profissional, muitas vezes a primeira manifestação de uma alergia respiratória relacionada com o trabalho. Ainda que possa aparecer isolada, a rinite é muitas vezes um sinal de “alarme” de uma asma profissional. São disso um bom exemplo as atividades em padarias e o trabalho com animais (incluindo os de laboratório). As suas manifestações clínicas são, no essencial, as crises esternutatórias, muitas vezes em salva, o prurido nasal, a rinorreia e a obstrução nasal.

Finalmente, os eczemas de contacto alérgicos caracterizam-se por uma reação de hipersensibilidade retardada em que o alergénio (ou hapteno) reage com as células de Langerhans que o apresentam aos linfocitos T que culminará em memória imunológica e células efetoras (a chamada fase de sensibilização). Qualquer novo contato desencadeia a libertação de citocinas, interferão e a ativação dos macrófagos (a chamada fase de revelação). Talvez o eczema alérgico de contato mais característico seja o eczema dos pedreiros, resultante da sensibilização a dois metais, o crómio e o cobalto.

Como sucede em todos os riscos profissionais, as principais medidas de prevenção deverão centrar-se na prevenção coletiva, atribuindo grande prioridade mais à substituição do que à redução do agente causal. Em meio hospitalar, a utilização cada vez mais criteriosa de luvas de látex e a sua substituição por luvas sem látex é disso um bom exemplo. Também, entre muitas outras, a máxima hermetização de fases do processo fabril com exposição a agentes causais de alergia profissional tem indiscutível importância. Quaisquer que sejam as medidas, não se devem circunscrever apenas aos fatores de risco individuais essas medidas de gestão de riscos profissionais.


Nota: publicado antes na newsletter da plataforma Linkedin

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Vítimas das tempestades: um bom exemplo da nossa cultura de prevenção!


Antonio Sousa Uva


Não sei se terão constatado (ou "realizado", como alguns agora dizem ...) que metade (ou mais) das mortes que as recentes tempestades causaram são consequência de acidentes pessoais ou de trabalho. Não poderia existir um exemplo mais marcado da nossa falta de "cultura de prevenção".

O grande busílis da questão é que a nossa memória é muito "volátil" e, breve, breve, já teremos esquecido o dramatismo desses acontecimentos que apenas alguns recordarão na próxima situação facilitadora desse tipo de acontecimentos.

Vem isto a propósito da propalada "cultura de segurança" a que vamos ouvindo fazer referência na área da SST (Saúde e Segurança do Trabalho). A nossa cultura mais prevalente é a cultura do "desenrasca" ou mesmo do "danger is my business" tão frequente entre nós. Recordo em alguns meios dos operários de empresas onde trabalhei a adjetivação depreciativa que por vezes se fazia a trabalhadores (uma minoria) que chamavam a atenção para esses aspetos em meio industrial. Recordo ainda um acidente de trabalho mortal ocorrido em que essa atitude terá eventualmente contribuído para a sua ocorrência, após análise da sua árvore das causas.

A reflexão que queria desencadear com estas considerações é sobre o que devemos fazer para criar uma cultura de prevenção que substitua, pelo menos gradualmente, a referida cultura facilitadora daquele tipo de acidentes. Demorará, por certo, uma ou duas gerações, o que não é muito "sexy", digamos. Mas é igualmente verdade que se deixarmos passar mais uma geração, demorará duas ou três ... Como disse muitas vezes na minha atividade de médico do trabalho "devagar que temos pressa" na criação de uma verdadeira cultura de prevenção!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Trabalho e Cancro: uma associação muito pouco valorizada

 


Antonio Sousa-Uva

A propósito do dia mundial do cancro que hoje, dia 4 de fevereiro, se celebra ...

Há umas décadas, no exercício da minha atividade como Médico do Trabalho numa grande empresa da Aviação Civil tive a incumbência de dar parecer ao Conselho de Administração em situações de pedidos de facilidade de passagens em trabalhadores portadores de doença em tratamento fora do território Nacional. Nessa atividade recusei a herança então existente de circunscrever esse parecer apenas à análise documental, optando também por uma consulta presencial. Essas muitas dezenas (ou mesmo algumas centenas ...) de consultas encerram histórias, a maior parte das vezes de grande complexidade, e em muitos casos de muita gravidade (e até dramatismo) em que as situações oncológicas eram prevalentes.

Recordo bem uma situação de um trabalhador com um ciclo de tratamentos prescrito numa Clínica conhecida nos EUA no Estado de Minnesota, um dos seus 50 Estados localizado a norte. Tratava-se de um cancro da bexiga, num trabalhador que nunca tinha sido fumador, que desempenhava a sua função como membro de uma equipa navegante de cabina em que uma exposição profissional que pudesse estar na sua origem, era inverosímil.

Talvez a minha especialização em Imunoalergologia me tenha habilitado a realizar histórias clínicas muito pormenorizadas e, igualmente, muito extensas numa tarefa "caça alergénio" e, consequentemente, pela grande probabilidade da etiologia da situação oncológica poder ser profissional fui muito insistente na busca de uma história pregressa com exposição a substâncias químicas que pudessem estar na origem daquele quadro nosológico. Em consequência dessa investigação obtive a informação que o trabalhador detinha, há alguns anos, uma Lavandaria e Tinturaria. Tal justificou a sugestão de comunicar esse facto ao Oncologista americano que o seguia, já que tive a informação que tal matéria nunca teria sequer sido aflorada nas situações clínicas até aí ocorridas.

Apesar de não saber do seu actual paradeiro, e de terapeuticamente ter pouca relevância, vim a receber, posteriormente, uma carta do seu Oncologista que me agradecia a lembrança e o meu interesse e "se desculpava" por considerar uma falha não ter dado qualquer atenção a potenciais exposições a substâncias químicas.

Há, de facto, localizações e tipos de cancro que têm uma importante frequência em determinados trabalhos, atividades ou exposições profissionais que tornam obrigatória a colheita de uma história profissional mais pormenorizada da que deve ser sempre realizada. As hipóteses diagnósticas de cancro da bexiga ou de cancro do pulmão são dois desses exemplos em que devemos sempre ter presente, em qualquer contexto clínico e não exclusivamente no exercício da Medicina do Trabalho, na exploração semiológica!

Nota: publicado anteriormente, em versão semelhante, na plataforma Heathnews.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

 


Antonio Sousa-Uva

Há muitos anos, no computador em que trabalhei e escrevi a minha tese de doutoramento, um 386, o screen saver que coloquei tinha o título de mais esta "migalha". De facto, na União Europeia existem cerca de 500 mortes diárias por doença "relacionada com o trabalho" e 10 por acidente de trabalho mortal (anualmente, 170.000 e 3.300 respetivamente). Claro que a União Europeia tem cerca de 450 milhões de habitantes, o que significa uma proporção relativamente baixa, mas, como dizia um meu anterior Professor e Chefe de Serviço, "... não te esqueças, que os que morrem, morrem 100% ...".


Como tenho vindo a escrever e a palestrar há umas dezenas de anos:


Porque será que nos tocam tanto as mortes causadas por acidentes de trabalho e tão pouco as causadas por "doenças relacionadas com o trabalho"? Será o dramatismo da ocorrência que determina tal diferença? ou, em alternativa, quem não sabe (ou não conhece) não é tocado?


Ainda, em alternativa, se nos tocam de igual modo, por que será que se investe alguma coisa (não posso dizer assim tão pouco) na prevenção dos acidentes de trabalho mortais e quase nada (não posso dizer absolutamente) na prevenção das "doenças relacionadas com o trabalho"?


Será o dramatismo das situações e o seu (relativamente) fácil reconhecimento que estão na base daquela desproporção que é ainda maior no número de ocorrências?


Não tenho respostas unívocas para estes e outros tipos de perguntas, mas o que estará, por certo, na sua origem será, eventualmente, o paradoxo dos responsáveis por essas matérias acharem que falarem nos assuntos é sinónimo de medidas concretas de prevenção? Ou, pior ainda, inscreverem a sua prevenção em programas plurianuais e acharem que isso previne a sua ocorrência? Claro que não é.


Talvez a forma mais expedita de ilustrar essa realidade seja evocar a exposição profissional ao amianto. Será, na atualidade, talvez o agente profissional mais falado em matéria de "doença ligada ao trabalho", mas as medidas de prevenção da sua exposição, mesmo após a proibição da sua utilização no espaço europeu há décadas, digamos, podiam ser bastante melhores em situações passadas em que foi utilizado. A tal propósito basta ter presente as notícias do atraso da sua remoção após a sua esperada efetivação, a fazer fé em notícias frequentes nos media!


Os artigos recentes que deixo na bibliografia, acessíveis online, decorrentes de um processo de doutoramento, ilustram, de certo modo, a minha tese e demonstram um grande fosso entre o diagnóstico de algumas doenças e a sua origem profissional. Se calhar alguns pensaram que havia muitas neoplasias causadas pelo amianto em países mais ricos da Europa e que em Portugal, com um clima mais "quentinho", não existiam. Talvez se tenham esquecido de que o amianto não foi usado só como isolante térmico, mas amplamente usado na Construção Civil (e em outras indústrias) e não apenas em estruturas de cobertura, para não falar nos milhares de trabalhadores que trabalharam em empresas que o utilizavam.


É que o trabalho dará por certo saúde, mas não é menos verdade que também pode causar doenças e acidentes e que até poderá matar. Talvez recordando isso se possa dar igual importância à máxima "o trabalho dá saúde" que alguns acrescentam "então que trabalhem os doentes" revelador de alguma iliteracia nessa matéria.


Bibliogafia

  • Santos, C., Dixe, M.D.A., Sacadura-Leite, E., Astoul, P., Sousa-Uva, A. Asbestos Exposure and Malignant Pleural Mesothelioma: A Systematic Review of Literature. Portuguese Journal of Public Health, 2022, 40(3), pp. 188–202.

  • Santos, C., Sacadura-Leite, E., Ferreira, J., Dixe, MDA, Astoul, P., Sousa-Uva. The Peural Mesothelioma Cases and Mortality in Portugal in 2014–2020: A Descriptive Study. Healthcare Switzerland, 2024, 12(11), 1103.