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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A Saúde Ocupacional é um investimento, nunca um custo!

 


Antonio Sousa-Uva

A Saúde Ocupacional no seu sentido mais amplo é uma área científica, multi(e trans)disciplinar, que objetiva um ambiente de trabalho saudável, seguro e satisfatoriamente confortável e um trabalhador saudável, ativo e produtivo, sem doenças naturais ou profissionais e apto e motivado para o exercício da sua atividade profissional, com satisfação e desenvolvendo-se de forma pessoal e profissional.

O trabalho pode afetar positivamente ou negativamente a saúde, sendo a prevenção dos riscos profissionais, principalmente das doenças profissionais e dos acidentes de trabalho, as componentes mais valorizadas, ainda que os fatores profissionais possam influenciar a saúde de muitas outras formas. O número e a diversidade dos fatores de risco para a saúde potencialmente existentes num ambiente de trabalho são consideráveis, diversificados e relacionados com a atividade e as condições em que é exercida. Esses fatores são tradicionalmente classificados, consoante a sua natureza, em fatores físicos, químicos, (micro)biológicos, psicossociais e relacionados com a atividade (ergonómicos, para alguns autores). Essas cinco categorias de fatores de risco são suscetíveis de causar efeitos adversos à saúde.

As pessoas que trabalham não devem perder a vida a ganhá-la e, consequentemente, é imperioso que se valorize o trabalho como atividade central da vida humana isenta de riscos profissionais ou, no mínimo, ambientes de trabalho em que o seu controlo seja efetivo em ambientes de trabalho compatíveis com as situações (de saúde) concretas dos trabalhadores.

Ao longo da vida ativa sabe-se, por exemplo, que a capacidade física, medida através da capacidade cardiorrespiratória, da força máxima voluntária ou da capacidade musculoesquelética, declina com a idade, para não se referir à diminuição das capacidades auditiva e visual mais perceptíveis por todos. Tal determina que as exigências do trabalho e as condições em que o trabalho é realizado sejam concebidas para os trabalhadores concretos que constituem a força de trabalho e não para um estereótipo de “trabalhador médio” a que frequentemente se recorre.

A falência (ou insuficiência) das intervenções na promoção da saúde no trabalho e na prevenção (médica e ambiental) dos riscos profissionais também pode determinar a ocorrência de doenças profissionais e de acidentes de trabalho com os decorrentes danos para a saúde, como já se referiu, determinando a necessidade da sua reparação. O estabelecimento de incapacidades permanentes resultantes daqueles danos consequenciais, por exemplo, de sequelas irreversíveis deve determinar a adaptação do trabalho às capacidades restantes dos trabalhadores. O trabalho não deve por isso ser considerado imutável, devendo adaptar-se a esse trabalho os trabalhadores concretos que o realizam, mesmo em situações que possam surgir, com necessidades de readaptação, recolocação ou, até mesmo, reconversão.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Fatores de risco cancerígenos e cancro "relacionado com o trabalho": quando o trabalho não dá saúde e até pode matar!

 


Antonio Sousa-Uva


A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (European Agency for Safety and Health at Work - EU-OSHA) acaba de tornar público um estudo, realizado por inquérito telefónico, sobre a exposição a fatores de risco profissionais de cancro em seis países europeus.


Objetivou-se nesse estudo estimar a probabilidade de exposição, na última semana de trabalho, a 24 fatores de risco cancerígenos, designadamente: (i) de natureza química, como o óxido de etileno e o formaldeído; substâncias geradas em processos, como as emissões diesel e as poeiras de sílica e misturas, como os solventes e tintas e pinturas com esses fatores e (ii) de natureza física, como as radiações.


Quase metade (47,3%) dos trabalhadores estima-se que possam ter estado expostos a pelo menos um desses fatores. Por ordem decrescente de frequência, assinalam-se a radiação UV, as emissões diesel, o benzeno, as poeiras de sílica, o formaldeído, o crómio hexavalente, o chumbo (e seus compostos inorgânicos) e as poeiras de madeira. Quanto ao nível de exposição (considerado elevado, médio ou baixo), 11,1% dos trabalhadores estavam expostos a pelo menos um fator de risco a níveis elevados. As exposições mais frequentes, por ordem decrescente de frequência, foram as poeiras de sílica, as emissões diesel, as poeiras de madeira, o benzeno e o formaldeído.


Talvez com exceção da exposição ao amianto, a atenção dedicada a estes fatores e riscos profissionais tem merecido uma ínfima parte da atenção que se tem dedicado, e bem, aos fatores de risco de acidentes de trabalho mortais. O dramatismo dessas ocorrências deverá sobrepor-se à gravidade dos efeitos da exposição a fatores de risco cancerígenos?


Os resultados deste estudo são uma boa oportunidade para valorizar muito mais a prevenção dos riscos profissionais de todas as "doenças relacionadas com o trabalho", e não apenas as relacionadas com os fatores de risco cancerígenos que, mais uma vez, se demonstra que continuam a não merecer a atenção que deveriam ter. Uma possível explicação para isso poderá residir em deixar de confundir a evocação dessa necessidade com a implementação concreta de medidas de prevenção bem estruturadas em planos e programas de intervenção preventiva competentes. Dito de forma mais popular, deixar de uma vez por todas de abandonar a perspetiva da "muita parra e pouca uva"!


Sugiro, porque vale bem a pena, uma leitura mais aprofundada do documento referido que pode ser acedido em https://osha.europa.eu/sites/default/files/documents/occupational-cancer-risk-factors-europe-overview-findings-WES_771_EN.pdf