Antonio Sousa-Uva
A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (European Agency for Safety and Health at Work - EU-OSHA) acaba de tornar público um estudo, realizado por inquérito telefónico, sobre a exposição a fatores de risco profissionais de cancro em seis países europeus.
Objetivou-se nesse estudo estimar a probabilidade de exposição, na última semana de trabalho, a 24 fatores de risco cancerígenos, designadamente: (i) de natureza química, como o óxido de etileno e o formaldeído; substâncias geradas em processos, como as emissões diesel e as poeiras de sílica e misturas, como os solventes e tintas e pinturas com esses fatores e (ii) de natureza física, como as radiações.
Quase metade (47,3%) dos trabalhadores estima-se que possam ter estado expostos a pelo menos um desses fatores. Por ordem decrescente de frequência, assinalam-se a radiação UV, as emissões diesel, o benzeno, as poeiras de sílica, o formaldeído, o crómio hexavalente, o chumbo (e seus compostos inorgânicos) e as poeiras de madeira. Quanto ao nível de exposição (considerado elevado, médio ou baixo), 11,1% dos trabalhadores estavam expostos a pelo menos um fator de risco a níveis elevados. As exposições mais frequentes, por ordem decrescente de frequência, foram as poeiras de sílica, as emissões diesel, as poeiras de madeira, o benzeno e o formaldeído.
Talvez com exceção da exposição ao amianto, a atenção dedicada a estes fatores e riscos profissionais tem merecido uma ínfima parte da atenção que se tem dedicado, e bem, aos fatores de risco de acidentes de trabalho mortais. O dramatismo dessas ocorrências deverá sobrepor-se à gravidade dos efeitos da exposição a fatores de risco cancerígenos?
Os resultados deste estudo são uma boa oportunidade para valorizar muito mais a prevenção dos riscos profissionais de todas as "doenças relacionadas com o trabalho", e não apenas as relacionadas com os fatores de risco cancerígenos que, mais uma vez, se demonstra que continuam a não merecer a atenção que deveriam ter. Uma possível explicação para isso poderá residir em deixar de confundir a evocação dessa necessidade com a implementação concreta de medidas de prevenção bem estruturadas em planos e programas de intervenção preventiva competentes. Dito de forma mais popular, deixar de uma vez por todas de abandonar a perspetiva da "muita parra e pouca uva"!
Sugiro, porque vale bem a pena, uma leitura mais aprofundada do documento referido que pode ser acedido em https://osha.europa.eu/sites/default/files/documents/occupational-cancer-risk-factors-europe-overview-findings-WES_771_EN.pdf

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