O Trabalho tem sido um factor determinante do desenvolvimento económico e social na história da Humanidade e a salubridade dos ambientes de trabalho há muitos séculos que constitui um factor relevante em matéria de saúde e bem-estar das populações, bastando para isso recordar as intoxicações por metais pesados há alguns séculos ou as lesões músculo-esqueléticas ligadas ao trabalho descritas também há muito mas com uma enorme expressão desde o último quartel do século passado. A Saúde e a Segurança dos Trabalhadores (SST) nos locais de trabalho, incluindo a Promoção e a Protecção da Saúde, podem constituir portanto um importante factor de desenvolvimento das sociedades já que proporcionam um trabalho mais saudável e, por isso, mais produtivo.
Qualquer que seja o modelo conceptual subjacente, a abordagem prática dos aspectos relativos às (inter)relações trabalho/saúde(doença) implica um conhecimento adequado dos factores profissionais em jogo e das respectivas repercussões sobre a saúde dos trabalhadores que se adquire, essencialmente, através da análise do trabalho e que, na perspectiva da saúde e da segurança, se caracteriza sempre por uma grande complexidade. Tal abordagem exige ainda o conhecimento aprofundado das variáveis individuais dos trabalhadores que interagem com os diversos elementos das situações de trabalho, e que delas fazem parte integrante, quer nos aspectos de adversidade (os mais frequentes), quer nas dimensões do conforto ou do bem-estar (quase sempre esquecidas). Estes factores são quase sempre pouco valorizados e substituídos por uma abstracção que alguns denominam "trabalhador médio".
Independentemente da perspectiva que se tenha, o binómio trabalho/saúde(doença) deve merecer mais atenção por parte de todos nós, através de um maior investimento na protecção da saúde de quem trabalha e na promoção da sua saúde. Investimento e não custo, como muitas vezes é encarada, a SST é uma componente essencial do desenvolvimento e do crescimento económico, devendo ser encarada como motor (e não como obstáculo) ao desenvolvimento e ao crescimento sustentado da sociedade. Apesar disso é, quase sempre, perspectivado como se de um imposto se tratasse.
As estratégias de intervenção em SST mais prevalentes assentam, quase sempre, nas dimensões ambiental (Higiene e Segurança do Trabalho) e individual (Medicina do Trabalho) e, mesmo nessas, essencialmente na avaliação e na gestão do risco relacionados com factores de risco químicos, físicos e, muito menos, microbiológicos ou psicossociais. De referir ainda que os riscos relacionados com a actividade (denominados ergonómicos na língua inglesa) ”esgotam-se” nas suas componentes ambientais (stricto sensu) e organizacionais para não dizer que apenas nos “movimentos repetitivos” no caso das até denominadas "lesões por esforços repetidos" (LER) no português do Brasil.
Interessa por isso reinventar novas abordagens das relações entre a saúde (na sua acepção mais ampla) e o mundo do trabalho valorizando mais a saúde dos trabalhadores do que a Saúde Ocupacional em sentido estrito (e hoje corrente) de modo a dar maior importância ao trabalho como agente promotor de saúde e caminhando, dessa forma, para abordagens que se situam para além dos factores (profissionais) de risco.
Dito de outra forma a Promoção da SST é condição necessária mas não suficiente para olhar as relações trabalho/saúde de forma salutogénica assente na abordagem de tais matérias mais na perspectiva da saúde do que na perspectiva da doença (dominante na dimensão da prevenção dos riscos profissionais). Tal modelo teórico exige de todos formas de planeamento, programação e intervenção muito diferentes do que hoje concentra a atenção dos serviços de prestação de cuidados baseados, no essencial, no "cumprimento" mais adjectivo do que substantivo das obrigações no domínio da SST.
Nota: Publicado inicialmente no blog Safemed, agora amplamente modificado.

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