Antonio Sousa-Uva
Não decorreram
assim tantos anos quanto se poderia pensar da época em que se impunham medidas
laborais com grande impacto na vida da(o)s trabalhadora(e)s. Recentemente
adquiri, num alfarrabista, um livro sobre a "A campanha pelo casamento das
telefonistas" datado de 1950.
A Liga
Portuguesa de Profilaxia Social (julgo que ainda existente e em actividade),
autora do livro, que no final deste ano perfaz um século (foi fundada em 1924)
iniciou, no primeiro semestre de 1939, uma campanha para anular a proibição de
as telefonistas da Anglo-Portuguese Telephone Company, Limited poderem casar,
que está na origem da edição. Por estranho que hoje tanto pareça, nessa altura
essa era uma norma, tal como para as enfermeiras dos Hospitais Civis e outras
profissionais, que apenas abrangia mulheres. Tal revela, por certo, a forma
como a sociedade, na época, olhava para os cidadãos, no caso em apreço na
perspetiva do sexo (ou género se se preferir ...).
Tal
exemplifica, igualmente, a influência do trabalho na vida da(o)s
trabalhadora(e)s e não só sobre a sua saúde. No 1º semestre de 1939 iniciou-se
a campanha que chegou, em dezembro desse ano, à Assembleia Nacional onde foi,
inclusivamente, evocada a sua inconstitucionalidade e que, mais tarde, viria a
ser revogada.
Aquela obra
literária inclui inúmeros depoimentos e artigos de Imprensa a favor da campanha
em que inúmeros cidadãos “exigem” a revogação dessa norma, quase sempre cidadãos
com grande preponderância na sociedade e igual capacidade de influenciar a
opinião em tal domínio. É muito interessante ler (e reler) os argumentos
utilizados e tentar compreender a cultura então dominante que determinava tão
grande diferença entre homens e mulheres, já que os trabalhadores do sexo
masculino nas mesmas funções não sofriam a mesma "punição".
É
indispensável ter presente que tal passou-se numa época relativamente recente
já que muitos milhares de cidadãos de então ainda hoje estarão vivos. Essa
"proximidade" deveria determinar uma reflexão profunda sobre o trabalho
humano e, designadamente, sobre a importância que hoje se confere às relações
entre a saúde e o trabalho em que muitos ainda consideram que, por exemplo, um
acidente de trabalho é fruto do "acaso" ou mesmo de um
"azar". Note-se que ao acidente até se denomina “infortúnio” (ou
“falta de sorte”).
O que acontece
em relação às doenças profissionais e a outras formas de o trabalho interferir
na história das doenças ainda é menos valorizado e encarado por muitos como uma
vulnerabilidade de alguns trabalhadores que deveria ser minorada por exames de
admissão "travestidos" de uma espécie de "seleção".
De facto, a
literacia no domínio da Saúde Ocupacional não é, entre nós, muito
"robusta" e a sua perspetiva é mais frequentemente encarada como um
custo do que como um investimento (para muitos mais uma “taxinha” dada a sua
obrigatoriedade). De facto, o investimento em trabalhadores saudáveis (“produtores”)
nem na perspetiva económica é, muitas vezes, considerado como algo
indispensável à qualidade do “produto” que exigiria, por certo, mais atenção.
Note-se, como
se referiu, que também, apenas a título de exemplo, as enfermeiras dos
Hospitais Civis tinham norma similar que também vigorou até bem mais tarde (início
dos anos de 1960) desse período pós 2ª Guerra Mundial.
Sendo o
trabalho indispensável à criação de riqueza, mesmo naquela perspetiva (económica)
não seria desejável mais investimento em tal domínio?
Estaremos a
valorizar suficientemente a saúde (e a segurança) de quem trabalha?
Fará algum
sentido “perder a vida” a ganhá-la?
Bibliografia
- Liga Portuguesa de Profilaxia Social. A campanha pelo casamento das telefonistas. Porto: Imprensa Social, 1950.
- Sousa-Uva, A.; Serranheira, F. Saúde, Doença e Trabalho: ganhar ou perder a vida a trabalhar. Lisboa: Diário de Bordo, 2ª ed., 2019.
Nota: Publicado, inicialmente, em Healthnews, informação em saúde.

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