Translate

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Saúde e Trabalho: riscos profissionais de natureza (micro)biológica

 



Antonio Sousa-Uva


Os factores de risco (micro)biológicos são, há muito, reconhecidos como agentes causais de doenças profissionais, tendo a Hepatite B sido reconhecida como doença profissional nos EUA em 1948. Em Portugal, apesar do reconhecimento ter sido ligeiramente posterior, a Hepatite B também é, há muito, considerada doença profissional em determinados casos como, por exemplo, nos profissionais de saúde prestadores de cuidados clínicos.

A identificação do vírus de imunodeficiência humana (VIH) no início da década de 1980 veio, de forma indelével, reforçar a importância dos factores de risco de natureza biológica e, de uma forma muito marcada, na prestação de cuidados de saúde. Deve-se, no entanto, referir que antes da descoberta do vírus de imunodeficiência humana (VIH) já eram conhecidos diversos casos de exposição a agentes de natureza biológica, não apenas do vírus da Hepatite B.

De facto, e apenas a título de exemplo, a Ricketsiose, designação atribuída a determinadas patologias provocadas por diversas ricketsias, está associada a uma forma de homenagem ao investigador que identificou o agente e que veio a contrair a doença no decurso da sua investigação. Historicamente existem muitos outros exemplos da atribuição a microrganismos do nome de investigadores que os estudaram e que, profissionalmente, contraíram a doença como é, por exemplo, o caso de Yohn Everett Dutton (borrélia duttoni).

Apesar desse conhecimento, os riscos biológicos são muitas vezes designados como emergentes, na perspectiva de serem novos, apesar do que, de facto, é novo é, essencialmente, a percepção desses riscos. Em Portugal, por exemplo, poderíamos referir verdadeiros casos de doença profissional em Câmara Pestana (peste bubónica) ou Sousa Martins (tuberculose), ainda que nunca como tal referidos.

A referência à contaminação por agentes biológicos, historicamente, é feita quase exclusivamente, através da via percutânea e, menos, da transmissão por projeção de líquidos biológicos na pele ou nas mucosas. Essa transmissão pode, porém, ocorrer por via aérea, via de transmissão que vem adquirindo uma importância cada vez maior, por exemplo em relação ao risco de tuberculose em médico(a)s e enfermeiro(a)s (e outros técnicos de saúde) e, designadamente, das suas formas multirresistentes.

A exposição a factores de risco biológicos sucede, essencialmente, em duas situações: o uso de agentes biológicos no “processo produtivo” e a exposição potencial, como é o caso dos profissionais de saúde ou dos agricultores.

Recentemente, a pandemia provocada pelo coronavírus SARS-Cov2 veio, de forma muito marcada, revelar mais uma doença profissional causada por agentes (micro)biológicos, a COVID-19, em determinadas situações e em, igualmente, determinados grupos profissionais. A grande novidade foi, contudo, a extrema rapidez desse reconhecimento, ao contrário dos casos anteriormente elencados. 

Apesar de tudo vai havendo algumas "vitórias", como a que se passou em relação à referida infecção por SARS-CoV-2, num profundo marasmo na atenção dada a estas matérias. Tal faz supor que se a maioria dos salários dos trabalhadores fosse mais próximo do salário do futebolista profissional Cristiano Ronaldo, talvez a atenção prestada à saúde (e segurança) pudesse ser bastante diferente da actual, já que um continuum de situações pandémicas não é, obviamente, tão desejável ...




Sem comentários:

Enviar um comentário

Participe nesta discussão. Deixe o seu comentário.