Antonio Sousa-Uva
Entre nós, o trabalho está habitualmente associado a alguma penosidade, o que, de resto, se expressa frequentemente no nosso dia-a-dia.
Contrariamente, por exemplo, aos japoneses trabalha-se em Portugal essencialmente para "ganhar a vida"! Apesar disso, há por vezes casos em que se perde a vida a ganhá-la ou, mais frequentemente, se vai perdendo a vida a ganhá-la. Tal ocorre em consequência de condições de trabalho ou atividades que contêm fatores de risco de natureza profissional que, insidiosamente, podem causar doença, mais ou menos, determinada pela ação desses fatores (que alguns denominam perigos, o que é em si mesmo outro perigo). Muitas vezes, a consequência dessas interações expressam-se dezenas de anos depois da exposição a esses fatores que decorrem por outras dezenas de anos, muitas vezes manifestando-se mesmo durante o afastamento da exposição ou até na idade da reforma.
Tais manifestações clínicas não são, frequentemente, "ligadas" ao trabalho como é o caso paradigmático de alguns cancros, muitas vezes com "despertar clínico" muito tardio e até em situação de reforma como se referiu. Tal deveria determinar mais a atenção a essas potenciais interdependências que deveriam, igualmente, determinar maior atenção às relações trabalho/doença por forma a aumentar a "regulação" que previna mais eficazmente essas exposições e contribua, dessa forma, para uma melhor prevenção.
De outra forma não será possível ser eficaz na melhor forma de lidar com essas patologias e de poder contribuir para tal ação, potencialmente, deletéria.
A proteção da saúde (e da segurança) de quem trabalha deve determinar que o trabalho não seja, nem venha a ser, a causa dessas situações e não se perca a vida a ganhá-la. Dito de forma diferente, deve-se atuar quando, aparentemente, nada se passa para nada se vir a passar posteriormente. É que o trabalho deve dar, e não retirar, saúde. Ou não será assim? Caso contrário não faria sentido o trocadilho "se o trabalho dá saúde, que trabalhem os doentes!" que revela em si mesmo, alguma iliteracia em saúde.

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