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domingo, 12 de julho de 2026

"Tesourinhos" do mundo do trabalho: trabalhador vs. empregado vs. colaborador ...

 

   Antonio Sousa-Uva


Há duas ou três semanas um Colega e Amigo e, pasme-se, também ex-aluno (ainda que tão ou mais cota, em linguagem informal, do que eu)) enviou-me um artigo de uma revista jurídica (1) com um ensaio sobre a substituição dos termos "trabalhador" e "colaborador" nas atuais relações de trabalho.

Tal artigo desencadeou em mim anteriores vivências da utilização do termo "trabalhador" na minha história de meio século de Medicina do Trabalho. Sempre conotado com uma intensa carga ideológica de Esquerda, o termo trabalhador sempre tem sido banido das novas (já, agora, velhas) formas de relações de trabalho, em que a modernidade fazia apelo ao facto de se "trabalhar com" e por isso de usar o termo "colaborador". Entretanto, em período intermédio, o termo "empregado" era preferido por alguns em relação a "trabalhador" considerado, no mínimo "vermelhusco" ...

Confesso que nunca me preocupou a utilização desses termos, o que de resto foi por vezes mal interpretado por alguns dos meus mestres, uma vez que sempre dei mais importância ao conteúdo do que à forma.

A muito recente utilização de plataformas digitais com relações de trabalho ainda mais complexas, de que a "uberização" é um bom exemplo, veio ainda intervir no conceito de colaborador, atribuindo-lhe novas dimensões de "parceria" e até de "empreendedorismo". Caricaturalmente, os novos patrões podem ser algoritmos e os novos trabalhadores são empresários em nome individual. É a liberdade subordinada e submissa "travestida" de parceria ou empreendedorismo. Uma espécie de "trabalho à peça" modernizada e muito mais elaborada e processada ...

Dito de outra maneira, é a sublimação da "luta de classes" por reações de poder mais complexas em que a subordinação é substituída pela autonomia, ainda que a sofisticação da complexidade dessas relações seja, seguramente, um bom combustível para riscos psicossociais cada vez mais complexos e, infelizmente, mais frequentes.   

Certo, certo é que o mundo do trabalho muda hoje muito e até se consegue travestir um trabalhador de empreendedor. Interessantemente, nunca se observou o inverso, com excepção do ""empresário em nome individual", hoje tão frequente e tão usado de forma perversa.

Não se perde nada em refletir sobre este (e outros) assuntos da nossa área de intervenção, mesmo despindo essa reflexão de grande carga ideológica que "castra" o pensamento livre. Caricaturalmente, poderia ser interpretado como uma espécie de "liberdade de não ser livre"...


  1. Zimmermann C, Rocha R.  De trabalhador a colaborador: estratégias discursivas no mundo do trabalho contemporâneo. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano. Campinas, v. 9, p.1-28.

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