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quarta-feira, 15 de julho de 2026

O meu (e do Prof. Florentino) último livro (e-book)


 

Descarregue, é gratuito. Boa leitura

https://lnkd.in/eVkRhnpP

domingo, 12 de julho de 2026

"Tesourinhos" do mundo do trabalho: trabalhador vs. empregado vs. colaborador ...

 

   Antonio Sousa-Uva


Há duas ou três semanas um Colega e Amigo e, pasme-se, também ex-aluno (ainda que tão ou mais cota, em linguagem informal, do que eu)) enviou-me um artigo de uma revista jurídica (1) com um ensaio sobre a substituição dos termos "trabalhador" e "colaborador" nas atuais relações de trabalho.

Tal artigo desencadeou em mim anteriores vivências da utilização do termo "trabalhador" na minha história de meio século de Medicina do Trabalho. Sempre conotado com uma intensa carga ideológica de Esquerda, o termo trabalhador sempre tem sido banido das novas (já, agora, velhas) formas de relações de trabalho, em que a modernidade fazia apelo ao facto de se "trabalhar com" e por isso de usar o termo "colaborador". Entretanto, em período intermédio, o termo "empregado" era preferido por alguns em relação a "trabalhador" considerado, no mínimo "vermelhusco" ...

Confesso que nunca me preocupou a utilização desses termos, o que de resto foi por vezes mal interpretado por alguns dos meus mestres, uma vez que sempre dei mais importância ao conteúdo do que à forma.

A muito recente utilização de plataformas digitais com relações de trabalho ainda mais complexas, de que a "uberização" é um bom exemplo, veio ainda intervir no conceito de colaborador, atribuindo-lhe novas dimensões de "parceria" e até de "empreendedorismo". Caricaturalmente, os novos patrões podem ser algoritmos e os novos trabalhadores são empresários em nome individual. É a liberdade subordinada e submissa "travestida" de parceria ou empreendedorismo. Uma espécie de "trabalho à peça" modernizada e muito mais elaborada e processada ...

Dito de outra maneira, é a sublimação da "luta de classes" por reações de poder mais complexas em que a subordinação é substituída pela autonomia, ainda que a sofisticação da complexidade dessas relações seja, seguramente, um bom combustível para riscos psicossociais cada vez mais complexos e, infelizmente, mais frequentes.   

Certo, certo é que o mundo do trabalho muda hoje muito e até se consegue travestir um trabalhador de empreendedor. Interessantemente, nunca se observou o inverso, com excepção do ""empresário em nome individual", hoje tão frequente e tão usado de forma perversa.

Não se perde nada em refletir sobre este (e outros) assuntos da nossa área de intervenção, mesmo despindo essa reflexão de grande carga ideológica que "castra" o pensamento livre. Caricaturalmente, poderia ser interpretado como uma espécie de "liberdade de não ser livre"...


  1. Zimmermann C, Rocha R.  De trabalhador a colaborador: estratégias discursivas no mundo do trabalho contemporâneo. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano. Campinas, v. 9, p.1-2026.

Doze mulheres acabaram intoxicadas: avaria em aparelho provoca reação química e 79 funcionários são socorridos

 


Antonio Sousa-Uva

Hoje, 9 de julho, fui surpreendido por uma notícia num dos canais por cabo que apresentava o título desta "migalha" em rodapé. Trata-se de uma "pérola" da importância atribuída à SSTLT pela nossa sociedade civil. Por si só, encerra na breve notícia a notoriedade dessas questões e a (i)literacia em Saúde Ocupacional.

Desde logo, parece ser o insólito da ocorrência, o número de trabalhadores afetados e a emergência desencadeada que mobilizam a atenção das fontes da notícia. Por exemplo os termos: "Fator de risco profissional", "Acidente de trabalho", "Doença profissional", "Toxicologia do Trabalho", "Saúde e Segurança do Trabalho" nunca são sequer aflorados. Se procurássemos um bom exemplo da necessidade de melhorar as políticas públicas de Proteção da Saúde dos Trabalhadores não encontraríamos, eventualmente, um tão bom exemplo.

No entanto vamos fazendo livros brancos ou verdes que, reiteradamente, abordam aspetos para, aparentemente, parecer que estamos muito empenhados em mudar a realidade "confrangedora" desta área da saúde e do trabalho ou será mesmo para a melhorar? não sei!

Há cerca de 30 anos que digo, reiteradamente, que continuo a valorizar mais a cor amarela mais ligada às reclamações, mas, diga-se em abono da verdade, sem grande sucesso. Para alguns políticos agora muito na moda um verdadeiro "loser". Apesar da antiguidade dessa leitura, mantenho empenho redobrado em contribuir, com modéstia, para que esta triste realidade não se mantenha, aparentemente, "congelada". Oxalá mais este alerta contribua para que os diversos "players" melhorem a nossa realidade agora, aparentemente, "caricaturizada" pela situação noticiada. Assim espero!

Nota: 

Publicado antes na minha newsletter: https://www.linkedin.com/pulse/doze-mulheres-acabaram-intoxicadas-avaria-em-aparelho-sousa-uva-cd7ee/?trackingId=Egzb7fhG2e8dvbLQEVxgAw%3D%3D

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Precisa-se de uma SO (ou SST) como um investimento e não um custo!

 


Antonio Sousa-Uva

Desde que me dedico à Medicina do Trabalho e à Saúde Ocupacional (ou SST se se preferir), há mais ou menos meio século, que o seu modelo de base se baseia em algo "imposto" já que se parte do pressuposto que se assim não fosse os trabalhadores não teriam acesso a esses cuidados.

Não foi por acaso que esse modelo "compulsivo" e "punitivo" esteve na origem da proteção da saúde (e da segurança) de quem trabalha, entre nós, primeiro nas minas e depois nas empresas de alguma dimensão em matéria de número de trabalhadores e/ou da natureza dos riscos profissionais a que se encontravam sujeitos.

Quero crer que esse modelo "amarrota" ou "cilindra" outro modelo, mais moderno e eficiente, baseado em aspetos de investimento na saúde e conforto dos trabalhadores que, dessa forma, são bem mais produtivos e duradouros. É a dicotomia "modelo patogénico vs. modelo salutogénico" que determinará muito do que caracteriza as atuais relações trabalho/doença, em vez do investimento ser feito nas relações trabalho/saúde.

O mundo do trabalho tem sofrido grandes modificações e, para o ilustrar, bastará evocar as TIC, a robotização e a Inteligência Artificial, a terciarização da Economia e o envelhecimento da população ativa civil empregada. Tais características influenciam muito as situações de trabalho e deveriam determinar uma atenção diferente para os aspetos agora aflorados.

Apesar disso continua, maioritariamente, a olhar-se a SO (ou SST) como o IRC ou outros impostos, investindo-se mais nos aspetos formais do que nos aspetos substantivos. Uma espécie de "jogo do gato e do rato" em que se valoriza mais o que parece do que o que é ...

Quer se queira ou não queira não há trabalho sem trabalhadores e, consequentemente, a doença (ligada ao trabalho) e o acidente atingem os trabalhadores que, ainda consequentemente, se repercutem no trabalho. Ora o trabalho é o motor da prosperidade e do desenvolvimento que todos queremos. Então porque não damos mais importância à SO (ou SST) que para tal é determinante?

Talvez não seja má ideia mudar o paradigma dominante e olhar a SO (ou a SST) mais como investimento do que como custo. Não será óbvio?

Nota: Antes publicado em newsletter.