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terça-feira, 1 de julho de 2025

Mais um alerta para a violência sobre os médicos e outros profissionais de saúde. Quantos mais serão necessários para ações bem mais robustas para a sua prevenção?



Antonio Sousa-Uva

 

Já, anteriormente fiz textos sobre episódios de violência sobre médicos e outros profissionais de saúde. Um deles foi feito a propósito da publicação dos dados da Direção-Geral da Saúde de 2022. Apontavam, então, para quase o dobro dos ocorridos quer em 2020, quer em 2021. Mas tal corresponderia a um aumento desses episódios ou ao aumento da sua notificação? 


Assinalava, à data, ainda um nosso recente estudo num grande hospital em Lisboa, observacional e transversal, que teria revelado uma insuficiência de respostas organizacionais adequadas num contexto de livre acesso a zonas de trabalho e ainda uma insuficiente proteção por agentes de segurança que, ultimamente, tem, de facto, melhorado.

Aparentemente, a pouca familiaridade dos prestadores de cuidados com os procedimentos internos de notificação então identificada (dados anteriores a 2020) foi caracterizada como área carenciada de melhoria, bem como a insuficiente expressividade das estratégias intervencionistas destinadas a incrementar essas melhorias. Daí para cá tais aspetos têm, de facto, também vindo a ser melhorados.

Mas essa melhoria será suficiente?

Se assim for, por certo, a frequência desses episódios terá tendência a reduzir-se?

O referido Observatório Nacional da Violência Contra os Profissionais de Saúde no Local de Trabalho, desenvolvido pela DGS há alguns anos, com o objetivo de disponibilizar um sistema de notificação online dos episódios de violência tem sido, efetivamente, muito útil. Indicam agora os dados recolhidos que, em 2024, foram reportados 2581 episódios (dos quais quase 600 de violência física), o que representa, apesar das medidas implementadas, novo aumento em relação a 2023. E, releve-se, são ,em média, quase dois episódios diários de violência física sobre trabalhadores …

 

Será que temos feito o suficiente para a prevenção dos episódios que aquele Observatório nos revela?

Será que se tem feito o suficiente para a prevenção desses (e de outros) fatores de risco de natureza profissional?

Será que se dá igual importância ao diagnóstico de situação e à implementação de medidas concretas de prevenção?

É que os fatores de risco profissionais em médicos e outros profissionais de saúde não se circunscrevem aos agentes microbiológicos, como foi o caso recente da COVID19 em prestadores de cuidados ou em outras situações com risco específico de exposição ao agente. Existem inúmeros outros factores relacionados não só com as condições de trabalho, mas também com a atividade concreta.

Julgo que (em média) mais de sete episódios diários de violência infligida a médicos e outros profissionais de saúde, em 2024, deveriam determinar respostas mais "musculadas" de prevenção. É que se presume, obviamente, que aquele Observatório determina aspetos de diagnóstico que só se entendem como informação determinante para a ação "terapêutica" desses mesmos riscos psicossociais, que, parece-me, será por certo o pretendido! Ou estarei completamente equivocado?



Nota: Publicado, anteriormente, em Healthnews.

domingo, 1 de junho de 2025

Asma profissional: notas soltas

 


Antonio Sousa-Uva


O conhecimento disponível quanto a indicadores de prognóstico da asma profissional torna imperativo que a exposição (ocupacional) ao alergénio seja evitada, o mais precocemente possível, a partir do diagnóstico da doença. No caso concreto das doenças alérgicas profissionais, alguns mecanismos etiopatogénicos não estão ainda completamente esclarecidos, sabendo-se todavia que, a partir do momento em que um indivíduo fica sensibilizado, qualquer exposição, por mais ínfima que seja, pode potencialmente  provocar doença. Apesar disso, a "predisposição individual" tem sido sempre mais valorizada do que os aspectos relativos ao ambiente de trabalho, que se consideram, quase sistematicamente, imutáveis. 


Se é verdade que determinadas características pessoais – como é o caso paradigmático da atopia – adquirem, em determinadas situações de exposição profissional (a faneras de animais, por exemplo), uma importância decisiva, não é menos verdade que, na maioria dos casos de exposição a substâncias químicas de baixo peso molecular, a atopia não desempenha, no desencadeamento de patologia alérgica profissional, um papel de primeira importância. Mas mesmo que, por absurdo, a hipersusceptibilidade constituísse factor determinante, tal não implicaria – face à elevada prevalência de atopia na população geral – que a intervenção em termos de prevenção colectiva pudesse ser dispensada, como parece ser a situação maioritariamente encarada.


Mantém-se polémica a fixação de concentrações máximas admissíveis para alergénios profissionais, apesar de ser quase consensual que tal prática deve ser mantida. Outro aspecto muito importante é a circunstância de existir uma forte possibilidade da exposição cutânea a um alergénio poder resultar na sensibilização e a potencial resposta à exposição por outra via, por exemplo do aparelho respiratório. Este aspecto coloca objectivamente em causa a actual estratégia de fixação de VLE baseada, principalmente, na exposição profissional por via inalatória. 


O conceito tradicional da fixação de limites de exposição baseada na perspectiva de um limiar abaixo do qual a maioria dos trabalhadores não adoeceria está posto em causa, no caso da exposição a alergénios. São, de facto. efeitos essencialmente estocásticos, isto é, efeitos em que não existe uma dose limite de exposição segura, ainda que a sua probabilidade de ocorrência pareça aumentar com a dose de exposição. 


A asma profissional coloca hoje importantes desafios que, para além dos aspectos teóricos ainda incompletamente conhecidos, encerra em si mesmo um vasto conjunto de entidades, diversas entre si, que determinam respostas necessariamente diferentes. Todavia, existe um denominador comum à asma profissional, asma relacionada com o trabalho e asma agravada pelo trabalho, que reside na sua complexidade e na dificuldade prática em se ser eficaz na prevenção ou no tratamento da doença, muitas vezes, mesmo após o afastamento do agente causal.


Tal complexidade deveria, pois, determinar a sua prevenção essencialmente dirigida para a evicção da exposição a alergénios e não, essencialmente, para a "seleção" de quem pode (ou não) estar exposto.