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domingo, 1 de junho de 2025

Asma profissional: notas soltas

 


Antonio Sousa-Uva


O conhecimento disponível quanto a indicadores de prognóstico da asma profissional torna imperativo que a exposição (ocupacional) ao alergénio seja evitada, o mais precocemente possível, a partir do diagnóstico da doença. No caso concreto das doenças alérgicas profissionais, alguns mecanismos etiopatogénicos não estão ainda completamente esclarecidos, sabendo-se todavia que, a partir do momento em que um indivíduo fica sensibilizado, qualquer exposição, por mais ínfima que seja, pode potencialmente  provocar doença. Apesar disso, a "predisposição individual" tem sido sempre mais valorizada do que os aspectos relativos ao ambiente de trabalho, que se consideram, quase sistematicamente, imutáveis. 


Se é verdade que determinadas características pessoais – como é o caso paradigmático da atopia – adquirem, em determinadas situações de exposição profissional (a faneras de animais, por exemplo), uma importância decisiva, não é menos verdade que, na maioria dos casos de exposição a substâncias químicas de baixo peso molecular, a atopia não desempenha, no desencadeamento de patologia alérgica profissional, um papel de primeira importância. Mas mesmo que, por absurdo, a hipersusceptibilidade constituísse factor determinante, tal não implicaria – face à elevada prevalência de atopia na população geral – que a intervenção em termos de prevenção colectiva pudesse ser dispensada, como parece ser a situação maioritariamente encarada.


Mantém-se polémica a fixação de concentrações máximas admissíveis para alergénios profissionais, apesar de ser quase consensual que tal prática deve ser mantida. Outro aspecto muito importante é a circunstância de existir uma forte possibilidade da exposição cutânea a um alergénio poder resultar na sensibilização e a potencial resposta à exposição por outra via, por exemplo do aparelho respiratório. Este aspecto coloca objectivamente em causa a actual estratégia de fixação de VLE baseada, principalmente, na exposição profissional por via inalatória. 


O conceito tradicional da fixação de limites de exposição baseada na perspectiva de um limiar abaixo do qual a maioria dos trabalhadores não adoeceria está posto em causa, no caso da exposição a alergénios. São, de facto. efeitos essencialmente estocásticos, isto é, efeitos em que não existe uma dose limite de exposição segura, ainda que a sua probabilidade de ocorrência pareça aumentar com a dose de exposição. 


A asma profissional coloca hoje importantes desafios que, para além dos aspectos teóricos ainda incompletamente conhecidos, encerra em si mesmo um vasto conjunto de entidades, diversas entre si, que determinam respostas necessariamente diferentes. Todavia, existe um denominador comum à asma profissional, asma relacionada com o trabalho e asma agravada pelo trabalho, que reside na sua complexidade e na dificuldade prática em se ser eficaz na prevenção ou no tratamento da doença, muitas vezes, mesmo após o afastamento do agente causal.


Tal complexidade deveria, pois, determinar a sua prevenção essencialmente dirigida para a evicção da exposição a alergénios e não, essencialmente, para a "seleção" de quem pode (ou não) estar exposto.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

"Trabalharás com o suor do teu rosto"

 


Antonio Sousa-Uva


Entre nós, o trabalho está habitualmente associado a alguma penosidade, o que, de resto, se expressa frequentemente no nosso dia-a-dia.


Contrariamente, por exemplo, aos japoneses trabalha-se em Portugal essencialmente para "ganhar a vida"! Apesar disso, há por vezes casos em que se perde a vida a ganhá-la ou, mais frequentemente, se vai perdendo a vida a ganhá-la. Tal ocorre em consequência de condições de trabalho ou atividades que contêm fatores de risco de natureza profissional que, insidiosamente, podem causar doença, mais ou menos, determinada pela ação desses fatores (que alguns denominam perigos, o que é em si mesmo outro perigo). Muitas vezes, a consequência dessas interações expressam-se dezenas de anos depois da exposição a esses fatores que decorrem por outras dezenas de anos, muitas vezes manifestando-se mesmo durante o afastamento da exposição ou até na idade da reforma. 


Tais manifestações clínicas não são, frequentemente, "ligadas" ao trabalho como é o caso paradigmático de alguns cancros, muitas vezes com "despertar clínico" muito tardio e até em situação de reforma como se referiu. Tal deveria determinar mais a atenção a essas potenciais interdependências que deveriam, igualmente, determinar maior atenção às relações trabalho/doença por forma a aumentar a "regulação" que previna mais eficazmente essas exposições e contribua, dessa forma, para uma melhor prevenção.


De outra forma não será possível ser eficaz na melhor forma de lidar com essas patologias e de poder contribuir para tal ação, potencialmente, deletéria.


A proteção da saúde (e da segurança) de quem trabalha deve determinar que o trabalho não seja, nem venha a ser, a causa dessas situações e não se perca a vida a ganhá-la. Dito de forma diferente, deve-se atuar quando, aparentemente, nada se passa para nada se vir a passar posteriormente. É que o trabalho deve dar, e não retirar, saúde. Ou não será assim? Caso contrário não faria sentido o trocadilho "se o trabalho dá saúde, que trabalhem os doentes!" que revela em si mesmo, alguma iliteracia em saúde.