Antonio Sousa-Uva
As relações trabalho/saúde(doença) são quase sempre perspectivadas patogenicamente, através dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais. No entanto essas relações são muito mais complexas e, adicionalmente, não valorizam a perspectiva da promoção da saúde no local de trabalho e a manutenção da capacidade de trabalho. A proposta é de, em pequenas "migalhas", reflectir nesses diversos temas.
Antonio Sousa-Uva
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
Antonio Sousa-Uva
Em novembro, a Sociedade Portuguesa
de Medicina do Trabalho (SPMT) vai realizar o XVIII Fórum Nacional de Medicina
do Trabalho.
Foi como Vice-Presidente da SPMT que
tive o prazer de, com o Professor Mário Humberto de Faria então Presidente,
participar ativamente na criação destes Fora. Recordo com alegria as fogosas,
extensas e profusas discussões sobre a designação do Encontro e da sua
periodicidade.
Prevaleceu a periodicidade de
realização nos anos ímpares, após um esforço de convergência com idênticas
iniciativas das gentes do Norte que, nos anos pares, ficaram de realizar os
encontros da Póvoa do Varzim, infelizmente extintos. Recentemente, e pós pandemia, a periodicidade parece ter-se modificado e prevalecer
a sua realização anual.
Deve, todavia, dizer-se que, na sua
criação, o mesmo esforço foi feito com Coimbra que não manifestou
disponibilidade para organizar idêntica reunião científica no Centro o que
determinaria a sua realização a cada três anos. Tal não deu continuidade às
reuniões pioneiras de Medicina do Trabalho em Portugal, as Jornadas Médicas da
Figueira da Foz – Medicina do Trabalho em que participei ativamente, pela
última vez, um ano antes do 1º Fórum, nas XXIV Jornadas, em setembro de 1990.
Mais intensa foi, todavia, a
discussão em torno da designação da reunião científica já que o consenso foi
muito fácil na definição da população-alvo que, na esteira da conceptualização
das relações trabalho/saúde(doença) dos anos de 1980, foi muito abrangente e
destinada a todas as áreas científicas de alguma forma relacionadas com essas
interdependências e a todos os grupos profissionais interessados na prestação
de cuidados de saúde e segurança do trabalho.
A indecisão não se centrava tanto
na designação “Fórum”, mais expressivo do ecletismo pretendido, por oposição a
“Congresso” então mais em voga, mas essencialmente na designação de “Medicina
do Trabalho” ou de “Saúde Ocupacional”. Era então extremamente inovador
realizar uma reunião de médicos com uma “palete” tão vasta de técnicos e outros
profissionais como população-alvo e não apenas médicos, enfermeiros e outros
clínicos como atualmente alguns se referem à Saúde Ocupacional.
Veio a prevalecer “Medicina do Trabalho” e desde a sua primeira edição, em 1991, os fora têm-se realizado regularmente a cada dois anos, com excepção do período pandémico e o aparente propósito de passar para uma periocidade anual iniciado em 2023.
Para que não se esqueça o 1º Fórum
Nacional de Medicina do Trabalho (Presidente, Prof. Mário Faria) realizou-se em
Lisboa entre 23 e 26 de Outubro de 1991.
O Fórum teve sete sessões
plenárias, todas a cargo de preletores estrangeiros:
Teve ainda inúmeras sessões simultâneas procurando, dessa forma, corresponder a uma “oferta” que respeitasse as diversificadas formações académicas e grupos profissionais dos participantes.
Julgo ter sido a reunião
técnico-científica mais importante na área da Saúde Ocupacional/Medicina do
Trabalho realizada em Lisboa após a realização do 10º Congresso Internacional
de Doenças Relacionadas com o Trabalho, designação do Congresso da
International Commission on Occupational Health – ICOH (então ICOM de Occupational
Medicine), que ainda se mantém com regularidade a cada três anos talvez com
o estatuto do mais importante fórum nessa área científica. Esse Congresso realizou-se,
como foi dito, em Lisboa no ano de 1951, e foi presidido por T. Stowell e
secretariado por L. Carozzi.
O 3º Fórum Nacional de Medicina do Trabalho, realizado em 1995, teria, no entanto, muito maior dimensão já que se realizou em simultâneo com o Congresso Ibero-Americano, com participação muito ampla de médicos do trabalho de cerca de uma dezena de países dessa área geográfica e um programa cultural fantástico, de que se destaca a Fotografia subordinada ao tema "O Homem e o Trabalho" e a Música, com inúmeras canções de trabalho que deram uma beleza especial aos períodos de início e de pausas das sessões científicas.
E para que não se esqueça, a Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho não teria tido meios de organizar o Fórum sem apoios, e o patrocínio decisivo foi da extinta Companhia de Seguros Bonança. Recordo, ainda com algum incómodo, no período de preparação, o périplo realizado por Laboratórios Farmacêuticos, na área de Queluz de Baixo, e a atribuição de patrocínios de mínguos três dígitos de euros a uma especialidade médica então pouco valorizada por essa actividade económica. Foram tempos bem difíceis que parece terem valido a pena.
Felizmente que agora os tempos são outros, mas poderiam, eventualmente, não ter sido sem o pioneirismo que agora se evoca. E, mais importante ainda, os médicos do trabalho que integram a SPMT continuam a dar-lhe uma grande importância, no contexto da divulgação científica na sua área de investigação e de estudo. Recorde-se, no entanto, que, numa actividade médica maioritariamente pulverizada por pequenas organizações, o convívio e a troca de experiência que proporciona não é de todo despiciendo.
Nota: Baseado num texto publicado em 2017 no portal Safemed, agora adaptado aos tempos actuais.
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
Antonio Sousa-Uva
01 de novembro de 2024
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
Antonio Sousa-Uva
Bater palmas ou não bater
palmas? Eis a questão. Essa dúvida existe há anos e as opiniões são diversas
ou, dito de outra forma, não existe uma resposta unívoca. No passado, por
exemplo no século XIX, Mendelssohn na estreia de uma das suas peças pediu que
ela fosse tocada sem interrupção, para evitar aplausos, tal como Shumann nos
seus concertos para piano e violoncelo. Bater palmas ou não bater palmas?
Vem tal a propósito da
nova “moda”, cada vez mais frequente, de bater palmas em funerais! Julgo, há
poucas dezenas de anos, tal ter começado a acontecer em funerais de actores e,
gradualmente, estendeu-se a figuras públicas, mas agora generalizou-se completamente
o que faz pressupor que, quem sabe, se aplicará no futuro à generalidade dos
funéreos! Mas a questão mantém-se, bater palmas ou não bater palmas?
Tudo leva a crer que tais
palmas expressam o apreço pelo finado (findado) ou defunto que, por isso, desencadeia
tal manifestação de júbilo, ainda que numa manifestação de tristeza profunda já
que representa o seu fim. Se estivéssemos a usar linguagem gastronómica seria
algo semelhante ao que se sente em algo agridoce. Julga-se que tal continuará a
determinar reacções contrárias dos diversos intervenientes e, igualmente,
diferentes estados de alma.
Tudo muda “ … mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança…” e devemos habituarmo-nos à mudança. E exprimir o que sentimos, da forma que entendermos, deverá ou não sobrepor-se à anterior pergunta?
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
Antonio Sousa-Uva
Mais um 4 de outubro em que se celebra, nalguns países, o dia dedicado ao médico do trabalho. Independentemente da (in)utilidade destes dias comemorativos é, no mínimo, mais uma oportunidade para reforçar o papel dos médicos do trabalho para que quem trabalha não perca a vida a ganhá-la e para que se contribua para locais e metodologias de trabalho para as pessoas concretas que o realizam.
Quando se abordam esses aspectos a atenção recai, invariavelmente, na influência negativa que o trabalho pode ter na saúde, quase sempre, os acidentes de trabalho, principalmente os mortais e, menos amiudadamente, as doenças profissionais mais graves como é, por exemplo, o cancro causado pelo amianto.
Em qualquer dessas, e de outras, situações os médicos do trabalho são insubstituíveis para contribuir para uma mais sã harmonia entre o trabalho e a saúde. Tal não invalida a perspectiva mais prevalente da organização de cuidados de Medicina do Trabalho e de Saúde Ocupacional a prestar a trabalhadores nem sempre ser feita ou, sendo, ser encarada como uma imposição maioritariamente administrativa.
Será isso aceitável?
Fará algum sentido um trabalhador ter de escolher entre trabalho ou saúde?
Porque será que a Medicina do Trabalho é muito confundida com Medicina no Trabalho, como poderia ser no consultório ou no hospital?
Porque razão a especialidade médica da Medicina do Trabalho não tem, por vezes, o mesmo reconhecimento que outras especialidades?
O dia 4 é um bom dia para reflectir sobre essas matérias e na necessidade de melhorar a proteção da saúde de quem trabalha!
4 de outubro de 2024
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
Antonio Sousa-Uva
Mais uma reflexão que se faz sobre a Saúde (e Segurança) Ocupacional(ais), agora, e de novo, através de mais outro livro verde. É sempre bom pensar e reflectir sobre qualquer assunto, uma vez que tal pode determinar alguma "mudança". Menos normal já é, a intervalos de 20 ou 30 anos, repetirem-se diagnósticos que, dessa forma, têm o mérito de se "modernizarem" ficando, todavia e tendencialmente, tudo como dantes (quartel-general em Abrantes ...). Oxalá não seja o caso da actual reflexão.
Desta vez o diagnóstico determinou a necessidade, bem copiosa, de 83 recomendações. Podiam ser 830 já que a área temática é tão carenciada mas, numa abordagem mais contida, ficou-se, apesar de tudo, abaixo da centena.
Confesso que "encalhei" logo na primeira:
"... Criar a Agência Portuguesa para a Saúde, Segurança e Condições do Trabalho, a partir dos recursos humanos, financeiros e materiais existentes na ACT e no programa nacional de Saúde Ocupacional da DGS, agregando, à semelhança do que se verifica na maioria dos países da Europa, a prevenção dos riscos profissionais numa Agência, e dotando-a dos meios necessários para atuação eficiente no domínio da promoção da SST. Tal permitirá evitar que a gestão pública da prevenção esteja espartilhada e colocada em segundo plano, como acontece atualmente, com perda de sinergias que vão além da dispersão das políticas, quer de segurança e higiene do trabalho, quer de saúde do trabalho, dentro de organismos cuja missão maior é de natureza diferente...".
Entre uma multidão de dúvidas e incertezas, ocorreu-me:
Porque terá ocorrido esse "encalhamento"?
Terá sido por constatar, num documento de quem é o principal responsável pela área, a assumpção da ineficiência da promoção da SST?
Terá sido por me recordar das peripécias, relacionadas com a designação, de uma proposta que fiz há mais de 30 anos, como Director de Saúde e Segurança do Trabalho de uma empresa de cinco dígitos de trabalhadores, da criação de uma Comissão de Saúde, Segurança e Condições de Trabalho?
Terá sido pela referência à maioria dos países da Europa que me recordaram fenómenos equivalentes em relação a ciclovias ou rotundas?
Terá sido por ter intuído que o busílis (leia-se estorvo ou empecilho) disto tudo parecer ser a falta de sinergias? Será mesmo?
Terá sido por continuar a constatar que na SST a forma se sobrepõe, inexoravelmente, ao conteúdo? Não deveria ser mais valorizado o conteúdo?
Terá sido por temer voltar ao assunto daqui a 20 ou 30 anos?
Tenho esperança que as 82 recomendações restantes sejam para mim mais fáceis de entender ou posso arriscar-me a ser "atropelado" pelo próximo livro verde ... branco ou de qualquer outra cor. Continuo, nesse contexto, a aguardar o amarelo para reclamar melhor saúde (e segurança) do trabalho.
Pelo menos para mim o livro verde da SST está a ser eficaz na reflexão que pretende desencadear, mas confesso que continuo, mesmo com esse livro, tão ou mais preocupado com a saúde (e segurança) de quem trabalha. É que capacitar e dar autonomia aos trabalhadores em saúde (e segurança) julgo constituir há muito a grande necessidade. Apesar disso, insiste-se mais na forma no que no conteúdo ... Nada de novo?!
Nota: Com base numa outra versão publicada na plataforma Healthnews.
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
Antonio Sousa-Uva
Meados de
julho de 2024, mais um acidente de trabalho mortal de um jovem trabalhador
português (também atleta de futsal), desta vez na Suíça e envolvendo o trabalho
em estruturas (andaimes) na área da Construção Civil. Mais um triste exemplo de
um acidente nesse sector de actividade económica, ainda que num dos países mais
ricos da Europa. A perspectiva simplista dirá que os portugueses atraem os
acidentes de trabalho, mas uma visão mais robusta de análise dirá simplesmente
que quase um quarto da população activa Suíça é portuguesa e mais ainda no
sector da Construção Civil e, "caricaturando", só são vítimas
potenciais quem aí trabalha.
Será infortúnio (ou falta de sorte) ou, APENAS,
insuficiente cumprimento de regras de segurança e incompleto enquadramento
normativo de tal tipo de actividade de montagem de estruturas. Pelo menos, tal
não será suficiente para melhorar as normas de SST que reduzam,
tendencialmente a zero, tal tipo de acontecimentos?
Quantas mais mortes serão necessárias para que
qualquer trabalho em altura seja executado no respeito pelas normas de
segurança que reduzam (outra vez) esse risco tendencialmente a zero?
No mundo do trabalho, fazemos tudo o que deve ser feito em matéria de prevenção
dos acidentes de trabalho, designadamente no trabalho em altura?
As normas e regras da Saúde e Segurança do Trabalho são respeitadas nesse
domínio? e suficientemente auditadas?
Será suficiente, a diversos níveis, o controlo da aplicação das normas e
regras?
A comunicação de risco e a formação dos trabalhadores nesse domínio serão
realizadas de forma sistemática e com grande empenho dos empregadores, também
na Suíça?
Será aceitável "suportar" tais mortes
totalmente evitáveis e o (hor)ror de anos de vida perdidos?
Poderiam colocar-se muitas outras questões em relação à ocorrência destes dramáticos acontecimentos, mas o propósito de mais esta reflexão é tão somente mais uma tentativa de acrescentar mais “massa crítica” nesse domínio. É que, pelo menos no meu entendimento, pode-se fazer bem mais do que fazemos em Portugal, na Suíça ou em qualquer outro país.
Apenas numa abordagem académica, o empenho colocado na
sua prevenção seria o mesmo se as vítimas, em vez de trabalhadores da
Construção Civil, fossem trabalhadores bem mais "valiosos" ou,
caricaturalmente CEOs ou PDGs?
Nota: Publicado, inicialmente, na plataforma Healthnews.
Agora, em outubro de 2025, mais "dois operários mortos em queda" é o que as notícias nos transmitem, em vez de "mais dois acidentes de trabalho mortais, por queda, em obra de Construção Civil" ... "Tudo como antes, quartel-general em Abrantes" ... As perguntas mantêm-se sem respostas...
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
Antonio Sousa-Uva
Numa destas minhas "crónicas", assinalei uma reivindicação pública, então assumida, para a criação médica da carreira de Medicina do Trabalho, da qual fui primeiro subscritor, datada de fevereiro de 2006. Referia então (1) que se tratava apenas de um exemplo. Por diversas vezes, principalmente desde 1991, (transferência para o Direito Interno da Directiva-Quadro), várias Entidades e médicos do trabalho chamaram a atenção para essa necessidade, apesar da especialidade ter sido criada em Portugal muito antes (em 1979).
Em 11 de maio de 1999 (sete anos antes dessa "crónica") e em 3 de abril de 2000, apenas mais dois exemplos, eram enviados ofícios às então Ministras da Saúde (Maria de Belém Roseira e Manuela Arcanjo) pelo Presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho (cargo que, à data, desempenhava) referindo mais uma vez essa necessidade. O primeiro foi, à data, encaminhado para o Departamento de Recursos Humanos (onde se presume que terá "marinado" muitos anos) pelo Chefe de Gabinete da Ministra (Mário Correia de Aguiar) e o segundo teve idêntico "tratamento", desta vez para o Gabinete do Secretário de Estado dos Recursos Humanos e da Modernização da Saúde (por parte de Natália Cunha, chefe de Gabinete).
Antes da definição do respectivo plano de formação (2012) foram portanto, durante cerca de 20 anos, feitos muitos esforços para a criação da carreira no contexto das, à data, quatro carreiras médicas. A criação dessa nova carreira de Medicina do Trabalho é que está ligada, por exemplo, à "eclosão" dos diversos serviços de Saúde Ocupacional de Hospitais, com uma ou duas excepções que lhe são anteriores.
Recordo-me de uma palestra feita no Hospital de S. José nos anos de 1980 sobre riscos profissionais em Hospitais que foi notícia de destaque no Diário Popular (já extinto) dado à estampa com recurso a uma fotografia de arquivo com um muro degradado desse Hospital. Tal pareceu-me, caricaturalmente, equivalente a fazer notícia de alguém que almoçou num restaurante. Tal revela ainda, não há muito tempo, a pouca (ou nenhuma) atenção prestada aos riscos profissionais para quem trabalha em Hospitais.
Tal referência, recorde-se, teve muita relação com a atenção que uma nova doença (SIDA), à data com desfecho gravíssimo, terá permitido destacar esse risco em prestadores de cuidados de saúde, ainda que, anteriormente, bastaria a referência ao risco da exposição às radiações ionizantes para justificar maior atenção.
Quase nada nasce por geração espontânea e a carreira de Medicina do Trabalho na Administração Pública em Portugal não constituiu, obviamente, excepção. Claro que muitos outros aspectos e protagonistas, seguramente de acrescida importância, estarão, certamente, na sua origem. Estas "notas avulsas" não pretendem, por isso, ser mais do que pequenos contributos para a história da carreira de Medicina do Trabalho na Administração Pública que tornou essa especialidade médica igual a qualquer outra, em vez de um complemento a outra especialidade então tantas vezes presente.
(1) Sousa-Uva A. Contribuição para a história da criação da Carreira Médica de Medicina do Trabalho. Blog Saúde Ocupacional e Medicina do Trabalho em migalhas. 20-06-2023
01 de julho de 2024
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
Já passaram quase 20 anos desde uma reivindicação pública então assumida para a criação médica da carreira de Medicina do Trabalho da qual fui primeiro subscritor (e outros cinco médicos), em fevereiro de 2006. Em outra vintena de anos anterior (re)visitava-se periodicamente esse tema, principalmente através da Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho e, principalmente, no seguimento da criação da especialidade em 1979 (os primeiros cursos de Medicina do Trabalho remontam ao início dos anos de 1960). À data, o "panorama" de exercício da Medicina do Trabalho era reservado a esses diplomados (e algum tempo de exercício, no caso dos detentores da Especialidade) e, quase generalizadamente, realizado em tempo parcial e, muitas vezes, com perfil complementar a outra especialidade médica.
A carreira viria a ser criada no início deste século e, alguns anos depois, viria a ser aprovado o seu plano de formação (2012) que ainda vigora, (também ainda) que por vezes, no passado, essa formação já fosse amplamente comentada, principalmente após a criação da secção monoespecializada de Medicina do Trabalho no seio da União Europeia de Médicos Especialistas a que estivemos ligados. Essa criação foi por nós promovida (como Presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho) e também pela Escola Nacional de Saúde Pública (Mário Faria) junto do então Bastonário, Santana Maia (1992-1996). A Direcção do Colégio era, (ainda e também) à data, composta por Alberto Eloi Prata Cardoso (Presidente), Altamiro Lopes Ferro, Cipriano Gonçalves Sousa, Fernando Albergaria, João Senos Vizinho, Joaquim Arenga e Maria Teresa Galhardas que acabariam, por sua iniciativa, a não completar o mandato em função do que então se terá passado no contexto do reconhecimento da Especialidade.
Entretanto passou-se quase meio século (desde a sua criação, como Especialidade), tempo que se julga muito mais do que excessivo para que esta Especialidade (a nossa), tão incompreendida até no contexto do exercício da Medicina, se afirme como uma Especialidade Médica, tão digna como qualquer outra, que contribua para a prevenção médica dos riscos profissionais, para a promoção da saúde de quem trabalha e para a manutenção da sua capacidade de trabalho. É apenas com base nessas finalidades que deve (e pode) ser concebido o respectivo (e necessário) plano de formação que deve (e pode), por isso, ser muito melhorado e deixar de contribuir tanto para a acessibilidade à prestação de cuidados e mais para os objectivos da sua existência como Especialidade Médica.
Na actual fase de "crescimento" da nossa Especialidade, tal formação deve, em nosso entendimento, continuar a contar com componentes teóricas e teórico-práticas, como de resto acontece em muitos outros países. A principal razão disso reside no conhecimento científico e metodologias com grande componente multi e transdisciplinar quase inexistentes na formação pré-graduada (Mestrado Integrado em Medicina). Caso contrário a Especialidade será mais de "Medicina no Trabalho" do que "Medicina do Trabalho" (alguns especialistas autodenominam-se Médicos de Saúde Ocupacional) e deve, por isso, mudar a sua actual denominação. Mas se assim for, justificar-se-á a sua existência como Especialidade?
Tal passa-se, de resto, em outras Especialidades Médicas do que os anglo-americanos denominam Medicina Social. Apesar de tudo, e não tendo o propósito de agora traçar uma resenha histórica da Especialidade, a actual perspectiva do futuro da Medicina do Trabalho como Especialidade Médica (tudo leva a crer) parece bem mais risonha. É que no passado, em alguns casos e tal como aconteceu em muitos outros países, o percurso da Medicina do Trabalho pode mesmo ser comparado a um verdadeiro "caminho das pedras" que, no futuro, deve ser evitado!
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
António Sousa-Uva
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
Antonio Sousa-Uva
Neste dia 6 de maio de 2024 mais um acidente de trabalho mortal, desta vez na Murtosa e numa árvore. Para quem associa os acidentes de trabalho mortais só à Construção Civil mais um triste exemplo que tal nem sempre acontece apenas nesse sector de actividade económica.
Julgo que o infortúnio (ou falta de sorte) ou mesmo mais esta "disgrazia" se situa mais na leviandade de não respeitar as mais elementares normas de segurança e não apenas no trágico de mais uma morte evitável. E a esse propósito:
Quantas mais mortes serão necessárias para que qualquer trabalho em altura seja executado no respeito pelas normas de segurança que reduzam esse risco tendencialmente a zero?
Para quando a obrigatoriedade de uma formação específica obrigatória prévia a esses trabalhadores?
Fazemos tudo o que deve ser feito em matéria de prevenção dos acidentes de trabalho, designadamente no trabalho em altura?
As normas e regras da Saúde e Segurança do Trabalho são respeitadas nesse domínio? e suficientemente auditadas?
Será suficiente, a diversos níveis, o controlo da aplicação das normas e regras?
Existirá uma robusta cultura de saúde e segurança do trabalho nas nossas empresas e outras organizações onde esses trabalhos se realizam?
A comunicação de risco e a formação dos trabalhadores nesse domínio serão realizadas de forma sistemática e com grande empenho dos empregadores?
Poderiam colocar-se muitas outras questões em relação à ocorrência destes dramáticos acontecimentos, mas o propósito de mais esta reflexão e lembrança das questões colocadas é somente mais uma tentativa de promover mais “massa crítica” nesse domínio. É que, pelo menos para mim, acho que podíamos fazer bem mais do que fazemos e, mais ainda, o nosso empenho deveria ser bem mais "agressivo".
Lisboa, 6 de maio de 2024
Nota: Modificado a partir de uma publicação anterior na plataforma Healthnews.
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
Mais uma primeira 3ª feira do mês de maio e mais uma celebração do dia mundial da asma (por iniciativa da GINA - Global Initiative for Asthma) da Organização Mundial da Saúde. Também mais uma referência à asma profissional
A asma profissional coloca questões de ordem prática
A indústria têxtil
O diagnóstico de asma profissional
A história clínica e a história profissional são, por isso, os elementos-chave de diagnóstico.
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.
Antonio Sousa-Uva
Em 28 de abril celebra-se o dia mundial da Segurança e Saúde no Trabalho como acontece há muito. Repetem-se, sempre, diversas iniciativas com o propósito de dar maior visibilidade aos aspectos da protecção da saúde (e segurança) de quem trabalha.
As mensagens serão, igualmente como sucede há anos, muito semelhantes às dos anos anteriores e serão focadas, igualmente e por certo, nos aspectos essencialmente relacionados com a prevenção e, fundamentalmente, dos acidentes de trabalho mas também, quero crer, um pouco das doenças profissionais, ainda que raramente ultrapassando o simples enunciado dessa necessidade. Apesar de tudo, ainda podia ser pior!
Claro que a "moda" das alterações climáticas dá à comemoração uma certa "modernidade" valorizada em meio europeu, ainda que, por exemplo, a "uberização" (já com muitos anos) e o teletrabalho (com menos anos) nos coloquem, por certo, mais dúvidas relativamente a potenciais riscos profissionais. Tal, todavia, não parece merecer tanta valorização como as consequências das alterações climáticas, note-se, como risco profissional. Tal não terá por certo nada a ver com os modelos teóricos que estão na origem dos acidentes de trabalho ou das doenças profissionais ou essa relação poderá ser considerada?
Continuará, por certo, a pouco se falar, julgo, das mais prevalentes interacções do trabalho na matriz etiológica multifactorial de diversas doenças e menos ainda do potencial agravamento de doenças naturais por factores de risco profissionais. Mesmo dando mais ênfase aos factores profissionais psicossociais e respectivos riscos, essas interacções serão, por certo, insuficientemente valorizadas, e menos ainda o serão, outras "dimensões" que permanecerão "ocultas", aguardando outro "pontapé de saída" das instituições europeias.
Também o potencial papel promotor da saúde que o trabalho poderia proporcionar fica, como sempre, num plano secundário, ofuscado pela prevenção dos riscos profissionais ou, pior ainda, confundido com a promoção da saúde e segurança do trabalho, mas isso não estará na moda. É o que temos! Resta-nos a alegria de continuarmos a focarmo-nos mais nos trabalhadores do que nos prestadores (ou, até mesmo, nos prescritores ...). E, apesar de tudo, é isso que, realmente, interessa!
Para o ano, haverá mais e, esperemos, melhor! E ainda há quem diga que o trabalho dá saúde ... que se complementa com o "então que trabalhem os doentes". Não estará na origem dessa afirmação alguma iliteracia nessas matérias?
28 de abril de 2024
"Trabalho com Saúde" ou "Trabalho ou Saúde"?
O trabalho é uma das locomotivas das sociedades modernas e é realizado por pessoas.
Claro que pessoas saudáveis produzem mais e melhor.
No blog também se abordam aspectos de Saúde Pública com extrema relevância.