Antonio Sousa-Uva
As notícias sobre acidentes de trabalho mortais em Portugal mantêm-se inalteradas ao longo de decénios, caracterizadas, essencialmente, pela ausência de referência aos AT mortais, preferindo-se o dramatismo do acontecimento e até mesmo os danos materiais. Vem isto a propósito de uma notícia, com o título desta "migalha", de dois acidentes de trabalho ocorridos na Construção Civil, na zona da grande Lisboa, que vitimaram mortalmente dois trabalhadores.
Há outros tantos decénios que escrevo e falo sobre estas matérias e, raramente, a notícia foca os acidentes de trabalho e o facto de que alguém perdeu a vida a ganhá-la... Tal poderá ser interpretado como um reflexo da cultura de SST dominante.
No caso noticiado, o enfoque foi feito na queda de uma grua, nos danos em numerosos veículos e pelo óbito de duas pessoas, por essa ordem. Nenhuma referência aos acidentes de trabalho para além do isolamento da área e a expectativa da sua remoção do local.
Será que as políticas públicas de SST fazem o que devia ser feito naquele domínio?
Será que não se identificam necessidades de um maior conhecimento de Segurança do Trabalho, como aconteceu (e acontece) com a Segurança Rodoviária?
Estaremos nós, profissionais de SST, a influenciar suficientemente os media para mudar a perspetiva prevalente sobre estas matérias?
Dois dias depois aparecem notícias sobre o número de acidentes de trabalho mortais e um grande enfoque na circunstância dos trabalhadores não usarem capacete nem arnês. Não sei se devo valorizar mais a perplexidade, a ignorância ou as políticas de circunscrever a prevenção de AT aos EPI ...
O insucesso que constato que as minhas intervenções têm não anula a motivação de continuar a abordar essas matérias e a expectativa que, breve, breve, a sociedade valorize mais o trabalho e os trabalhadores para que tenhamos trabalhadores seguros e saudáveis em locais de trabalho igualmente seguros e saudáveis.
