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quinta-feira, 1 de maio de 2025

"Trabalharás com o suor do teu rosto"

 


Antonio Sousa-Uva


Entre nós, o trabalho está habitualmente associado a alguma penosidade, o que, de resto, se expressa frequentemente no nosso dia-a-dia.


Contrariamente, por exemplo, aos japoneses trabalha-se em Portugal essencialmente para "ganhar a vida"! Apesar disso, há por vezes casos em que se perde a vida a ganhá-la ou, mais frequentemente, se vai perdendo a vida a ganhá-la. Tal ocorre em consequência de condições de trabalho ou atividades que contêm fatores de risco de natureza profissional que, insidiosamente, podem causar doença, mais ou menos, determinada pela ação desses fatores (que alguns denominam perigos, o que é em si mesmo outro perigo). Muitas vezes, a consequência dessas interações expressam-se dezenas de anos depois da exposição a esses fatores que decorrem por outras dezenas de anos, muitas vezes manifestando-se mesmo durante o afastamento da exposição ou até na idade da reforma. 


Tais manifestações clínicas não são, frequentemente, "ligadas" ao trabalho como é o caso paradigmático de alguns cancros, muitas vezes com "despertar clínico" muito tardio e até em situação de reforma como se referiu. Tal deveria determinar mais a atenção a essas potenciais interdependências que deveriam, igualmente, determinar maior atenção às relações trabalho/doença por forma a aumentar a "regulação" que previna mais eficazmente essas exposições e contribua, dessa forma, para uma melhor prevenção.


De outra forma não será possível ser eficaz na melhor forma de lidar com essas patologias e de poder contribuir para tal ação, potencialmente, deletéria.


A proteção da saúde (e da segurança) de quem trabalha deve determinar que o trabalho não seja, nem venha a ser, a causa dessas situações e não se perca a vida a ganhá-la. Dito de forma diferente, deve-se atuar quando, aparentemente, nada se passa para nada se vir a passar posteriormente. É que o trabalho deve dar, e não retirar, saúde. Ou não será assim? Caso contrário não faria sentido o trocadilho "se o trabalho dá saúde, que trabalhem os doentes!" que revela em si mesmo, alguma iliteracia em saúde.



terça-feira, 1 de abril de 2025

O trabalho nem sempre dá saúde e até pode matar!

 


Antonio Sousa-Uva


O modo como os factores profissionais intervêm na história natural de uma doença ou seja, o papel que desempenham na sua génese, na evolução ou no desfecho dessa mesma doença, permite classificar as situações nosológicas reconhecidamente "influenciáveis pelo trabalho" em três grandes categorias: 


(1) doença profissional e acidente de trabalho em que factores inerentes ao trabalho constituem condição "sine qua non" para a sua génese, cujo conceito jurídico, entre nós, apenas foi reconhecido em 1919; 

(2) doença relacionada com o trabalho (tradução literal, consagrada pelo uso, da expressão work-related disease) em que a influência do(s) factor(es) profissional(ais), diluída num contexto multifactorial, não tem carácter decisivo, e ainda 

(3) doença agravada pelo trabalho, em que a influência dos factores profissionais, não dizendo respeito à génese da doença, incide apenas na sua evolução e no correspondente resultado final.              

 

O número e a diversidade dos factores de risco para a saúde, potencialmente existentes num ambiente de trabalho, são consideráveis. Esses factores são tradicionalmente classificados, consoante a sua natureza, em factores físicos, químicos, biológicos, relacionados com a atividade e psicossociais. Essas cinco categorias de factores de risco são, potencialmente, susceptíveis de causar danos para a saúde. 


Existe, consequentemente, a necessidade de conceber o trabalho tendo em conta esses potenciais riscos cuja visibilidade é maior para os acidentes de trabalho (principalmente os mortais), bem menor para as doenças profissionais e quase nula para as doenças relacionadas e agravadas pelo trabalho.


Tal deveria determinar, desde logo, a necessidade de muito mais informação e formação sobre essas interdependências entre o trabalho e a doença (ou lesão), ainda que essa literacia não seja propriamente muito robusta. Tal reside na necessidade de antecipar essa probabilidade e atuar antes da sua ocorrência: a prevenção!


A prevenção dos riscos profissionais, qualquer que seja a respectiva estratégia de intervenção, implica inicialmente o diagnóstico das situações de risco (“risk assessment”) susceptíveis de indicar as respectivas estratégias de gestão desses mesmos riscos (“risk management”). O risco, nas sociedades modernas é inevitável sendo, consequentemente, inadiável a necessidade de o circunscrever à sua menor possibilidade de provocar efeitos negativos na saúde de quem trabalha. 


Será que fazemos o suficiente para, não sendo possível anular esses riscos, os reduzir à sua menor expressão probabilística?


Poderíamos fazer mais e melhor?