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terça-feira, 17 de agosto de 2021

Envelhecimento e Trabalho: "velhos são os trapos"!



 Antonio Sousa-Uva


Na atual fase de desenvolvimento da Saúde Ocupacional, ou da Segurança, Higiene e Saúde dos Trabalhadores nos Locais de Trabalho (SHSTLT) se se preferir, pretende-se um ambiente de trabalho saudável, seguro e satisfatoriamente confortável e um trabalhador saudável, ativo e produtivo, sem doenças naturais ou ocupacionais e apto e motivado para o exercício da sua atividade profissional, com satisfação e desenvolvendo-se de forma pessoal e profissional. Naturalmente em qualquer idade.

 

O trabalho pode afetar negativamente a saúde sendo, nos nossos dias, negligenciável a valorização do papel promotor de saúde que o trabalho deveria proporcionar que tem sido tema de outros textos deste blog. Tal é revelador da preponderância atribuída à componente preventiva dos riscos profissionais em detrimento da componente positiva (promotora) da saúde e do bem-estar, assim como dos aspetos relacionados com o desenvolvimento pessoal dos trabalhadores de que beneficiaria por certo a organização, através da valorização de tão importantes recursos estratégicos e, também e obviamente, o trabalhador.

 

O envelhecimento da população nas sociedades do mundo ocidental tem levado a importantes mudanças dos sistemas de Segurança Social com repercussões, como acontece entre nós, na idade da reforma (cada vez mais tardia) e, consequentemente, com a extensão da vida ativa.

 

Seria desejável que a “capacidade de trabalho” ao longo da vida se mantivesse nos níveis do início da atividade profissional em idades jovens. Sabe-se que o prolongamento da vida ativa é a regra no mundo ocidental, o que coloca importantes desafios em diversos contextos e também na perspetiva da Saúde Ocupacional.

 

Sabe-se, por exemplo, que a capacidade física, medida através da capacidade cardiorrespiratória ou da capacidade musculoesquelética, declina com a idade, para não referir a diminuição das capacidades auditiva ou visual de todos conhecidas.

 

Também se sabe que existe uma ampla variabilidade individual nessas vulnerabilidades muito dependente, para além de fatores individuais, de fatores relacionados com o ambiente de trabalho, da atividade desenvolvida e da organização do trabalho. E sabe-se ainda que a adopção de estilos de vida saudáveis pode influenciar positivamente a capacidade de trabalho (na língua inglesa, work ability).

 

Exige-se cada vez mais que a Saúde e Segurança do Trabalho não se circunscreva à prevenção dos riscos profissionais (e mesmo nesses valorizando muito mais as variáveis individuais que, quase sempre, não são sequer tidas em conta) e valorize mais ações que promovam a “empregabilidade” do trabalhador, incrementando iniciativas que desenvolvam a aptidão “máxima” para o trabalho em toda a vida ativa.

 

Nos últimos anos, a idade da reforma tem vindo a aumentar um pouco por toda a Europa e, obviamente, também em Portugal em que se constata ainda uma penalização crescente (e "alarvemente" penalizadora) no que concerne às reformas antecipadas. Não será alheio a essa circunstância, entre outros, o aumento da esperança de vida e a redução da taxa de natalidade.

 

De facto, o envelhecimento da população nas sociedades do mundo ocidental tem levado a importantes mudanças dos sistemas de Segurança Social ainda que essa extensão da vida ativa não seja, quase nunca, acompanhada de intervenções na melhoria das condições de trabalho inerentes a tal prolongamento da vida ativa e, menos ainda, a propostas inovadoras de transição entre a vida activa e a aposentação.

 

A decisão de trabalhar ou de se reformar depende de inúmeros fatores que estão muito para além do enquadramento legal nesse domínio. Tal decisão inicia-se desde logo com a resposta às perguntas: 


Posso trabalhar? 

Tenho saúde para trabalhar? 

A que se acrescenta essa necessidade ou esse querer. Quero trabalhar?


A Saúde Ocupacional (ou a SHSTLT) deveria interessar-se por estas áreas promovendo a adequação do trabalho ao trabalhador “envelhecido“, adaptando o trabalho às condições concretas relacionadas com o envelhecimento dos trabalhadores. É que não se pode querer "sol na eira e chuva no nabal"! Trabalhar em idades mais avançadas pode determinar a necessidade de melhorar as condições de trabalho e a actividade e trabalho no sentido do que há uns anos se denominava "adaptar o trabalhador ao trabalho e o trabalho ao trabalhador". Convenhamos que nem sempre este trajecto tem esses dois sentidos ... se não mesmo quase sempre.

 

Bibliografia
 

  • Costa G, Sartori S. Ageing, working hours and work ability. Ergonomics. 2007;50(11) 1914-1930.
  • Ilmarinen J. – Ageing workers. Occupational and Environmental Medicine. 2001;58:546-552.
  • Monge J, Sousa-Uva A, Serranheira F. et al. O trabalhador idoso: que desafios e implicações nas situações de trabalho? E para a Saúde e Segurança do Trabalho? In SOUSA-UVA, A. (ed.) - Trabalhadores saudáveis e seguros em locais de trabalho saudáveis e seguros, Lisboa, Petrica Editores, 2011.
  • Sousa-Uva A., Serranheira F. Saúde, Doença e Trabalho: ganhar ou perder a vida a trabalhar? Lisboa: Diário de Bordo, 2ª ed.,2019.
 

Nota: Adaptado a partir de um texto original publicado no blog Safemed.

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