Antonio
de Sousa Uva
A especialidade de
Medicina do Trabalho, apesar dos seus 42 anos de existência (não contando com
os quase mais outros vinte em que o seu exercício exigia apenas o Curso de Medicina
do Trabalho da Escola Nacional de Saúde Pública) só há menos de dez anos é
perspectivada como uma (entre outras) carreiras médicas. Para quem esteve empenhado nisso esse foi um marco de importância assinalável.
Até lá, houve médicos
pioneiros do seu exercício, muitos deles com outra especialidade médica ou
cirúrgica, inicialmente das especialidades hospitalares e, posteriormente
também das áreas da Saúde Pública, da Medicina Legal e da Medicina Familiar. Alguns
deles estão, de resto, na origem da criação da especialidade na Ordem dos
Médicos em 1979, na criação da secção monoespecializada de Medicina do Trabalho
da União Europeia de Médicos Especialistas e, já no actual século na sua
primeira década, da proposta de criação da quinta carreira médica na Administração
Pública (adicionada às carreiras médicas Hospitalares, de Medicina Familiar, de Saúde
Pública e de Medicina Legal).
Recorde-se que já nos
anos 50 do século passado (1951) se realizou, em Lisboa, o 10º Congresso
Internacional de Doenças Relacionadas com o Trabalho (presidido por T. Stowell
e secretariado por L. Carozzi que teve uma longa vida nessa função, entre 1910
e 1954) (Sousa-Uva, 2013; 2014 e 2015). Essa iniciativa da Comissão
Internacional de Saúde Ocupacional (ICOH na língua inglesa e CIST na língua francesa), ainda hoje se mantém indo realizar-se em 2022 o 33º Congresso em
Melbourne com o tema “Sharing solutions in Occupational Health through and
beyond the pandemic” (ICOH 2022).
A ICOH mudou de
designação na primeira metade dos anos 80 do século passado (1984) já que antes
se denominava ICOM ou CIMT que seriam substituídas (Medicine por Health
– ICOH e Médecine por Santé CIST). Tal mudança estará por certo associada à perspectiva pluridisciplinar das relações trabalho/saúde(doença) teorizada por organismos das Nações Unidas nessa década.
E hoje, que principais razões poderão estar na escolha dessa
especialidade como carreira médica de um qualquer jovem médico?
Diríamos:
- É uma especialidade da denominada por alguns autores Medicina Social, que se caracteriza por uma actividade com uma intensa inter e transdisciplinaridade, não renegando a sua natureza médica centrada não só em cada trabalhador mas ainda na população activa empregada numa determinada organização ou empresa;
- É dirigida ao conjunto de cidadãos que são de facto o suporte das sociedades modernas através da criação de riqueza, sem a qual não teríamos acesso às condições de vida que hoje existem;
- É uma especialidade médica que persegue a protecção e a promoção da saúde de quem trabalha, contribuindo portanto para a manutenção da aptidão para o trabalho que é sempre determinada também pela saúde e a segurança de quem trabalha;
- No ciclo de vida, dirige-se aos cidadãos em idade activa, assim como outras especialidades o fazem como por exemplo a Pediatria ou a Geriatria noutras fases desse ciclo. Sem essa especialização a perspectiva da saúde focada no ciclo de vida ficaria, por certo, muito incompleta;
- É uma especialidade médica que contribui, de forma decisiva, para a inclusão de quase todos no mundo do trabalho, fazendo (ou contribuindo para) o melhor emparelhamento possível entre as exigências do trabalho e a capacidade restante dos trabalhadores. De facto a aptidão é para uma actividade concreta numa também concreta situação de trabalho e não uma aptidão baseada apenas em critérios de saúde que não têm em conta as exigências do trabalho.
Bibliografia
- Sousa Uva A. Portuguese Society of Occupational Medicine – its role in the development of Occupational Health. In: Origins of Occupational Health Associations in the world Edited by:A. GRIECO, D. FANO, T. CARTER & S. IAVICOLI. 163-171 Amsterdam: Elsevier Science B.V., 2003.
- Sousa-Uva A. Medicina do Trabalho: o que é e para que serve? Segurança 2016;231:28-31.
- Sousa-Uva, A. Saúde e Segurança do Trabalho em Portugal: revisitando, através de notas soltas, os últimos 50 anos. Segurança - 1ª parte. Segurança. 2013;217:3-5.
- Sousa-Uva A. Saúde e Segurança do Trabalho em Portugal: revisitando, através de notas soltas, os últimos 50 anos – 2ª parte. Segurança. 2014;218:3-5.
- ICOH 2022. 33rd International Congress on Occupational Health. Disponível em: http://www.icohweb.org/site/multimedia/news/pdf/ICOH-2022-Congress-Announcement.pdf

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