Antonio Sousa-Uva
Nos últimos dois séculos os aspectos da Saúde e da Segurança do Trabalho têm
sido, sistematicamente, influenciados por inúmeros factores, entre outros, os
económicos, políticos e sociais entre os quais se destacam, por exemplo, a
estrutura macroeconómica, o nível de industrialização, a estruturação, dimensão
e distribuição por sectores das empresas e o grau de desenvolvimento
(socioeconómico e cultural).
O mais importante crescimento económico fez-se,
historicamente, em Portugal, com a industrialização que se prolongou até ao
advento do Estado Novo (anos de 1930). Até ao século XIX o desenvolvimento foi
lento, disperso, e baseou-se essencialmente na introdução de máquinas e
maquinismos das revoluções industriais Inglesa e Francesa, épocas em que se
realizaram em Portugal obras públicas de grande vulto.
A influência negativa dos
factores profissionais na Saúde e Segurança dos Trabalhadores (SST) envolveu,
historicamente, a insalubridade do ambiente de trabalho como factor determinante
da ocorrência de doenças profissionais e de acidentes de trabalho. Os acidentes
de trabalho foram as primeiras entidades reconhecidas como relacionadas com as
más condições de trabalho, na perspectiva da Saúde e Segurança dado o dramatismo
da sua ocorrência. Tal determinou o desenvolvimento de programas de intervenção
e prevenção dos riscos profissionais centrados essencialmente no “dispositivo
técnico” (ou “máquina”) e no ambiente de trabalho (na sua perspectiva mais
restrita) e, raramente, no trabalhador exposto, excepção feita à abordagem
centrada na abordagem “acidente/culpa”, eventualmente “descaracterizadora”,
desresponsabilizadora da entidade patronal. Em termos Europeus a taxa de
incidência de acidentes de trabalho (AT) tem vindo a diminuir, ainda que
Portugal tenha taxas de acidentes de trabalho (incluindo os acidentes mortais)
muito elevadas apesar do seu decréscimo nos últimos dez a vinte anos.
De facto, os acidentes de trabalho mortais em Portugal continuam a ter uma importante expressão no sector da Construção Civil ultrapassada a recente crise neste sector que reduziu drasticamente esses acidentes por forte redução da actividade. Qualquer estratégia, a nível nacional, de Saúde e Segurança do Trabalho (SST), ou até mesmo só de prevenção dos riscos profissionais, designadamente de acidentes de trabalho, deve partir de um correcto diagnóstico de situação que identifique os aspectos menos positivos das políticas até aí seguidas, naturalmente numa perspectiva construtiva. Nesse contexto, deve-se assumir que, em Portugal, se observaram desenvolvimentos importantes na área da Saúde e Segurança do Trabalho desde meados da década de 1990 mas que ainda são insuficientes.
Para quando a valorização das variáveis individuais nas
estratégias de prevenção dos acidentes de trabalho para além da “informação e
formação” e da perspectiva da “negligência”, mais ou menos grosseira?
Até quando
se manterá a abordagem analítica “fragmentada” das causas dos AT?
Quando se
começará a investir na “capacitação” (ou “empoderamento”) dos trabalhadores nos
programas de prevenção dos acidentes de trabalho, designadamente na componente
“percepção do risco”, decisiva para a obtenção de melhores resultados?
A palavra
“prevenção” rima com a palavra “integração”. Essa é, por certo, uma melhor
abordagem das acções de prevenção dos acidentes de trabalho, independentemente
dos modelos organizativos da prestação de cuidados de SST. A “Medicina do
Trabalho ” e a “Higiene e Segurança” devem cooperar cada vez mais e melhor.
Dessa forma, estou certo, será possível atingir níveis de frequência e de
gravidade da acidentabilidade (ou se for preferível, de sinistralidade) que se
aproximem da média europeia de AT e, dessa forma, reduzir o sofrimento sempre
associado a esses acontecimentos (sempre) traumáticos.
A Medicina do Trabalho
deve participar activamente nesse processo, em estreita cooperação com outras
formas de intervenção nesse processo, designadamente com a Segurança do Trabalho
que tem a principal responsabilidade na prevenção ambiental desses
acontecimentos totalmente evitáveis.
Bibliografia
- Santos C, Uva A. Saúde e Segurança do trabalho: notas historiográficas com futuro. Lisboa: Autoridade para as Condições do Trabalho – ACT, 2009.
- Uva, A.S. – A prevenção dos riscos profissionais em Medicina do Trabalho. In 1º Congresso Nacional de Saúde Ocupacional, Póvoa do Varzim, 6 a 9 de Outubro de 1996 – Proceedings. Póvoa do Varzim: Faculdade de Medicina do Porto.
NOTA: Publicada a versão inicial deste texto no Blog
Safemed em novembro de 2019, agora actualizada.

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