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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Tuberculose profissional: uma doença profissional muito esquecida




 

Antonio Sousa-Uva

Há alguns anos uma notícia da Sul Informaçãode 11 de Agosto de 2015também abordada na RTP, referia:

 

“... duas enfermeiras do serviço de Urgência do Hospital de Portimão foram recentemente diagnosticadas com Tuberculose, denunciou o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP)... A situação foi detetada em Maio, altura em que uma das profissionais de saúde começou a manifestar alguns sintomas da doença ...”


 

Em países com uma taxa de incidência de tuberculose inferior a 50/100.000, como é o caso de Portugal (menos de 20/100.000), os novos casos de tuberculose em profissionais de saúde parecem ser superiores à da população em geral. Baussano et al. estimaram uma incidência nesse grupo de trabalhadores de aproximadamente 67 casos /100.000 (Baussano et al., 2011; Shapovalova et al., 2016) e Duarte e Diniz citados por Oliveira (2014), referem que em Portugal se tem registado, nos últimos anos, uma incidência inferior de tuberculose entre profissionais de saúde.

A tuberculose continua a ser um problema importante de Medicina do Trabalho e de Saúde Ocupacional sobretudo entre os profissionais de saúde portugueses ainda que o foco de atenção das doenças causadas por agentes microbiológicos se continue a centrar nas doenças transmitidas por contato com o sangue ou derivados, designadamente o vírus da SIDA e os vírus de hepatites. As doenças transmitidas por via aérea eram muito menos valorizadas até à actual situação pandémica.

Poder-se-á achar “normal” os profissionais de saúde poderem ter tuberculose profissional, como se poderá achar “normal” um trabalhador que trabalhe com chumbo adoecer com um saturnismo. É o velho fatalismo do "ossos do ofício" 


Por outro lado, um médico do trabalho achará normal que nem um trabalhador exposto a chumbo adoeça com um saturnismo, nem um técnico de saúde que preste cuidados a um doente portador de tuberculose venha a contrair tuberculose. A razão dessa diferente forma de olhar para a mesma realidade reside na assunção que a metodologia de gestão de riscos profissionais, ainda que
frequentemente não reduza a zero esse risco, é muito eficaz na diminuição da probabilidade da sua ocorrência quando não é possível a sua eliminação.

Imagine-se a mesma “normalidade” em profissionais de saúde expostos a radiações ionizantes e as patologias relacionadas com essa exposição sem o rigoroso cumprimento de medidas básicas (ou muito sofisticadas) de prevenção desses efeitos. Regressaríamos ao início do século 20 do século passado com muitos casos de efeitos estocásticos de grande gravidade causados pela exposição a radiações.

O que deve ser normal (no sentido de esperável) é que a prevenção dos riscos profissionais em hospitais (e outros contextos profissionais) seja  inerente às boas práticas da prestação de cuidados e que esgotadas essas medidas os eventuais casos sejam identificados (e tratados se for caso disso), quer na perspetiva individual, quer na perspetiva da Saúde Pública.

As doenças causadas por agentes microbiológicos são uma realidade quase tão esquecida como as causadas por agentes psicossociais a que nestes tempos damos (e bem) tanta atenção no contexto actual dos riscos profissionais.

Extraído o contexto concreto e o eventual aproveitamento de tais tipos de situações o que não deveria ser normal é achar-se normal a ocorrência de qualquer doença profissional já que são, de facto, totalmente evitáveis se o sistema de Saúde Ocupacional estiver bem organizado e dotado de recursos adequados e profissionais competentes.


 Nota: modificado do texto publicado inicialmente no Blog Safemed.



Bibliografia

 

  • Baussano, I et al. 2013. Tuberculosis among healthcare workers. Emerging Infectious diseases Journal. 2013;17(3):488–494.
  • Oliveira, T. 2014. Infeção por Mycobacterium tuberculosis em profissionais de saúde: metodologia de avaliação do risco e sua aplicação num hospital central. XV Mestrado de Saúde Pública. Lisboa: Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, 82 pp.
  • Shapovalova, O. et al. Tuberculose latente em Profissionais de Saúde: concordância entre dois testes diagnósticos. Revista Portuguesa de Saúde Pública. 2016;34(1):3-10.
  • Sousa-Uva, A.; Serranheira, F. Saúde, Doença e Trabalho: ganhar ou perder a vida a trabalhar. 2019. 2a ed., Lisboa: Diário de Bordo.

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